‘Vinilmaníacos’
Na metade final dos anos 90, Rob Gordon é o frustrado proprietário de uma loja de discos, a “Championship Vinyl”, no subúrbio de Chigago. Ocupação que não constava em sua lista de cinco empregos dos sonhos. Após ser abandonado pela namorada, Rob passas algumas horas sozinho em seu apartamento reorganizando sua coleção de LPs. É quando Dick, um de seus funcionários e amigo, invade a sala e encontra Rob rodeado por milhares de discos.
“Parece que você está reorganizando seus discos. De que forma? Cronológica?”, pergunta Dick. “Não”, responde Rob. “Não é alfabética”, deduz o amigo. “Não. Autobiográfica”, revela Rob.
A cena faz parte do filme “Alta Fidelidade”, de 2000, uma adaptação do livro de mesmo nome do inglês Nick Hornby, um dos clássicos recentes da cultura pop. Entre listas de “Top Five” e a tentativa de reconquistar Laura, Rob (John Cusack) demonstra seu amor pela música e, em especial, pelos discos de vinil. A ponto de lincar os de sua coleção com passagens importantes de sua própria vida.
Apesar dos cerca de 10 anos que separam a época em que a história é contada e hoje, o amor pelas bolachas pretas resiste, mesmo que, nesse período, o CDs tenham tido tempo para se firmar e, logo depois, sucumbir aos arquivos digitais disponíveis na internet, que têm os contraditórios papéis de vilão para uns, e esperança para outros.
A ligação afetiva que Rob tem com seus discos é semelhante a do tatuador Mauro Gregório Júnior, 35, que ainda reserva um espaço em sua casa para acomodar sua coleção. “Ganhei meu primeiro vinil em 1982, aos nove anos. Tinha um tio que morava com a gente e ele ouvia muito Led Zeppelin, Black Sabbath, e eu comecei a gostar de rock. Um dia assisti a um show do Kiss na TV e meu pai decidiu me presentear com o “Creatures Of The Night”, que era o disco daquela turnê”, lembra Mauro. “Eu ouvia até gastar. Era muito novo pra ir em shows e me contentava com os vinis”, conta ele.
Com sua velha vitrola sem agulha, há algum tempo Mauro só consegue mesmo olhar para as capas de seus discos, a maioria de rock pesado dos anos 80. “Mas pelo menos uma vez por mês eu pego pra dar uma geral”, diz, sem esconder a preferência pelos LPs. “Os graves são mais definidos e tem aquela chiadeira clássica”, explica.
O radialista, jornalista, DJ, VJ e músico Antonio Carlos Senefonte carrega sua paixão pelos discos no próprio nome. Desde a década de 80 sob a alcunha de Kid Vinil, ele é considerado uns dos grandes especialistas brasileiros do gênero que tem Elvis Presley como Rei, tanto que acaba de lançar, pela Ediouro, o livro “Almanaque do Rock”. “Pertenço a uma geração que pensa no formato. Capa, arte, informação, letra. Tudo faz parte do conjunto. É como pegar uma obra de arte”, afirma o agora, também, escritor.
Entre os cerca de 20 mil discos que ocupam as prateleiras de sua casa, Kid tem dificuldade em escolher o preferido. “O Álbum Branco dos Beatles”, elege ele, depois de pensar um pouco. Mauro tem mais facilidade em apontar os melhores de sua coleção. À frente, o EP “Sjunger Sigge Furst”, lançado em 1993 pelo Candlemass, uma obscura banda sueca de metal. “Só saíram duzentas cópias”, diz ele, mostrando a informação que consta na contra-capa do disco.
“Eu gosto e coleciono desde moleque. Tenho esses e ainda compro pela internet. Mas é pra colecionador. O jovem quer colocar a música no iPod e sair ouvindo”, afirma Kid.

Mauro ganhou o primeiro vinil aos nove anos; paixão continua até hoje
Novos discos, velho formato
Decretado como um produto moribundo do final do século 20, o disco de vinil sobrevive graças a uma aura de cultuação formada a sua volta. Até mais do que isso. Na contramão do que acontece com o CD, os LPs experimentam um período de aumento nas vendas nos EUA. Só em 2007, as encomendas cresceram cerca de 37%, de acordo com matéria do jornal The New York Times do fim de agosto.
Apesar de ainda representar pouco na indústria da música, esses dados têm um perfil interessante. Não são os velhos álbuns sendo relançados no velho formato. São novidades de nomes respeitados, como Bob Dylan, que terá o disco “Tell Tale Signs”, em uma versão com quatro LPs, à venda a partir da próxima semana. A experiência já se mostrou recompensadora para bandas como Wilco, que vendeu 14 mil cópias em vinil de “Sky Blue Sky” no ano passado – o dobro do que já é considerado um sucesso para as bolachas.
Em um de seus blogs, o Listening Post, a revista americana Wired informou, em post de outubro de 2007, que o eBay, maior site de leilões virtuais do mundo, negocia cerca de um LP a cada dez segundos. Se esse ritmo for constante, são mais de três milhões de discos que trocam de mão a cada ano.
O radialista Kid Vinil é um dos que contribuem para esses números. Ele recebeu nos últimos dias os LPs de Bob Dylan que comprou pelo site. Em suas viagens, ele também não perde a chance de aumentar a coleção.
“Eu sempre compro, as feiras em Londres são muito boas”, afirma.
No Brasil a situação é bem diferente. Mas alguns artistas, como Lenine, não desistem do vinil. O pernambucano acabou de lançar seu novo álbum, “Labiata”, também em LP. Mas para isso precisou fabricár e importar um lote de mil cópias dos EUA, já que a última fábrica de discos de vinil do Brasil, a Polysom, fechou as portas no começo deste ano.
Algumas lojas, como a Livraria Cultura, vendem discos novos. Importados, eles acabam com preço ao consumidor muito fora da realidade brasileira. É comum que alguns ultrapassem os R$ 100. Dessa forma, não há muitas saídas pra quem quer descolar um vinil a não ser em sebos e lojas especializadas.
O comerciante Wilton Marchine Christiano, 46, é dono de uma das mais tradicionais lojas de discos de Americana. Criada há 25 anos, a Heavy Metal Rock começou com o vinil, “que era o que tinha na época”, conta Wilton. Algumas prateleiras ainda têm os discões à venda. “Tem uma procura legal, com uma moçadinha nova. Gente que nem tinha nascido quando o vinil acabou”, diz.
Wilton, que guarda 400 discos em casa, vê uma relação entre o fim do vinil e a crise no cenário musical mundial, em que bandas nascem e somem na mesma rapidez. “Essa molecada que baixa música e depois deleta, pra eles é tudo muito descartável. Quando comecei a gostar de rock, na década de 70, tinha que ir pra Campinas comprar disco. Essa dificuldade valoriza”, acredita Wilton.

Wilton guarda 400 discos em casa
Pelo tombamento da Polysom
Criada em 1999, quando os discos de vinil já tinham atestado de óbito, a Polysom resistiu bravamente até o início deste ano. Foi quando a última fábrica de LPs do País fechou as portas na cidade de Belford Roxo (RJ). Com capacidade para prensar até cinco mil discos por dia, a fábrica chegou a fazer 110 mil cópias de um único álbum em 1999. Pouco antes de falir, esse número caiu para cerca de 23 mil por ano.
No ano passado, o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil apoiou um projeto para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprove o tombamento da Polysom. Para o representante da Secretaria de Políticas Culturais do MinC (Ministério da Cultura), Alvaro Malaguti, o processo é complicado. “Trata-se de uma operação muito difícil, pois a empresa possui dívidas com a Receita Federal, governo estadual e fornecedores privados. Além disso, o MinC nunca tinha trabalhado com a recuperação de uma fábrica”, afirma ele.
“No momento o Ministério está empenhado em realizar e custear a elaboração de um estudo detalhado sobre a situação da fábrica que contemple aspectos do presente, como valor dos equipamentos que a empresa ainda possui mas também do futuro, como qual é a demanda mínima de prensagem que a fábrica tem que ter para se manter funcionando sem prejuízo”, completa ele.
Publicado no Jornal TodoDia, em 28/09/2008