Sexta-Feira, 09 Outubro, 2009

Foi mais ou menos assim

Foi quando eu descobri que seria corintiano até o meu último suspiro.

O Corinthians enfrentava o São Paulo no segundo jogo da final do Campeonato Brasileiro de 1990. O gol histórico do eterno amuleto Tupãzinho nos transformou no maior do Brasil pela primeira vez. Eu não estava no Morumbi nesse dia. Tinha apenas cinco anos e não fazia muita ideia do que acontecia por lá. Mas via tudo pela TV.

Não, mas não foi dessa vez ainda. Quer dizer, eu já estava bem encaminhado, mas ainda não tinha sido dessa vez. O problema é que eu tenho poucas lembranças do dia em que isso aconteceu de verdade. Talvez por eu ser ainda muito novo. Ou não. Talvez porque o momento em si falou mais alto. Provavelmente.

Na iminência de me apaixonar pelo Corinthians acima de qualquer outra coisa, eu já me sentia um corintiano. Tinha minhas camisetas, sabia cantar algumas músicas. Faltava vez ou outra da escola pra poder ir ao Pacaembu com meu tio. Eu também dizia pra todo mundo quem era meu ídolo: Neto.

Em 90, Neto acabou com o campeonato. Seus gols de falta empurraram aquele time que era mais guerreiro do que técnico, como manda a nossa tradição, ao primeiro título nacional do Corinthians. Cada vez que marcava um gol em minhas brincadeiras, eu tentava imitar sua comemoração. Aquela em que ele saía correndo, escorregava com os joelhos e erguia um dos braços, com o outro pra trás. Acabei me ralando algumas vezes.

Até que um dia ele foi pra Americana. É aí que minha memória começa a falhar. Não lembro quando foi. Tenho a impressão que foi no período em que ele esteve suspenso por ter dado uma cusparada no José Aparecido de Oliveira, juiz que apitava um clássico contra o Palmeiras em 1991. Acho também que foi durante uma das “Festas das Nações”, que aconteciam anualmente na cidade. Mas sei que foi na Fidam, um pavilhão de eventos que ficava perto da minha casa.

Não tenho a menor ideia do que o Neto foi fazer lá. Mas eu devo ter enchido o saco do meu pai o suficiente pra ele concordar em me levar pra vê-lo. Coloquei minha camisa do Corinthians, a número dois, listrada como a da final de 1977, e fui.

Lembro que o Neto estava sentado atrás de uma mesa e que tinha uma fila. Na minha vez, uma mulher disse que, para conseguir um autógrafo dele, era preciso comprar alguma coisa, que nem imagino o que era. Só sei que ela cortou meu barato da forma mais cruel possível, principalmente se tratando de uma criança de cinco anos.

Acho até que ela foi bastante sem educação nesse momento. Meu pai não teria se recusado a comprar seja lá o que fosse, mas lembro dele ter ficado puto e me puxado pra ir embora dali. Caralho, naquela idade e eu já tinha conhecido aquela que seria a maior decepção da minha vida, não fosse o Corinthians ter empatado o maldito jogo contra o Grêmio em 2007.

É nesse ponto que a minha memória clareia. Eu já estava de costas para o Neto quando ouvi ele dizer algo como “para com isso, traz ele aqui”. Soltei da mão do meu pai e fui até ele. O Neto pegou uma caneta azul e assinou na gola da minha camisa, do lado esquerdo. Na camisa listrada não sobram muitos espaços para uma assinatura.

Eu acho nem agradeci. Devia estar empolgado demais pra lembrar de ser educado. Mas o Neto não pode imaginar o quanto eu sou grato a ele por isso.

A camisa eu ainda tenho guardada, obviamente. A assinatura continua lá, mas, para não se perder com o tempo nem com as lavagens, na época a minha vó bordou sobre ela. Continua clara e forte, ao contrário do número 10 às costas, que já começa a desaparecer.

Nada além disso. Não tenho uma foto qualquer que prove o que eu estou contando. Como se vê, até mesmo a minha memória jogou fora boa parte do que aconteceu no dia em que me encontrei pela primeira vez com um ídolo. O que, de certa forma, pouca diferença faz. Não preciso de nada além de uma camisa velha, com um nome rabiscado na gola, pra lembrar o que me fez ser o que eu sou hoje: corintiano.

José Ferreira, o Neto

José Ferreira, o Neto

Terça-feira, 06 Outubro, 2009

Untitled

Aquela não era sua noite mais feliz desde que chegou na cidade. Começar com Elliott Smith parecia fora de questão. Suas músicas são tão carregadas de melancolia que quase dá pra entender o que levou o cara a se matar com dois golpes de faca no peito, como se um não fosse o suficiente.

Na TV, nada que parecesse minimamente interessante. Ele, então, voltou novamente sua atenção para o iTunes sem, no entanto, se esforçar para que a sequência musical pudesse contribuir para deixar as últimas horas do dia menos sacais. Muito pelo contrário. O negócio, aparentemente, era se afundar em canções que o fizessem se lembrar cada vez mais dela.

Algumas por motivos óbvios, outras por razões que só ele entendia. Deixou rolar “Between The Bars”, do maluco suicida, uma ou outra do Radiohead. Até Bon Jovi tocou. Foda-se. Ele estava sozinho e ninguém precisava saber disso.

Quarta-feira, 30 Setembro, 2009

Hope you guess my name…

Na tentativa de reativar esse blog, publico um texto escrito há algum tempo. Na verdade, é um piloto de uma coluna que eu teria no caderno Triboz, do Jornal TodoDia, que nunca saiu – ou entrou – no papel por pura preguiça. Não minha. Ela foi escrita ano passado, quando o Todo Poderoso ainda enfrentava seu maior calvário e o show do Radiohead no Brasil ainda era uma das maiores lendas urbanas do mundo. Desde então, graças a Deus, as coisas mudaram. Thom Yorke cantou e não viu o sofrimento de quem tentava deixar a Chácara do Jóquei e Ronaldo, o Fenômeno, agora desfila as suas arrobas com a gloriosa camisa alvinegra, aterrorizando zagueiros irrelevantes de times medianos. Esse talvez seja o primeiro texto da retomada. Para o bem, ou para o mal. Sei lá.

Você não me conhece. Por que você acreditaria em mim? O primeiro CD que comprei – ou melhor, ganhei – foi a trilha sonora de “Forrest Gump”. Eu adorava aquele filme e sempre comentava da cena em que a “moça tocava pelada”. Hoje eu sei que ela cantava Blowin’ In The Wind e que aquele era um ato válido de protesto contra uma guerra estúpida. Mas, na época, era só uma mulher pelada na televisão.

Quem já ouviu a trilha sonora desse filme sabe que eu comecei bem. Só que depois eu joguei tudo isso no lixo. Sabe-se lá porque, mas eu convenci meu pai a comprar um disco do Negritude Júnior. E eu sabia de cor o nome de todo mundo que foi convidado para a tal ‘festa na Cohab’. O Nenê, o Chamburcy, o Claudinho e a rempa toda.

Eu sonhava em participar da Porta dos Desesperados do programa do Sérgio Mallandro. Sempre quis ganhar um Dynavision. Desisti depois que fui presenteado com um Mega Drive 2, com seus fantásticos 16 bits e jogos como Sonic, Altered Beast e Art Alive. Mas eu confesso que sempre tive um pouco de inveja dos meus amigos que tinham o Super Nintendo.

Eu me borrei quando vi “O Exorcista” pela primeira vez. Aquela mina virando a cabeça, pelo amor de Deus. Falo palavrão pra caralho. Na verdade, considero os impropérios essenciais para uma comunicação eficaz.

Não gosto de Chico Buarque, mas respeito. Acho a Bossa Nova um pé no saco, e concordo com a definição do Lobão. Não sabe qual foi? Procura no Google. Acho que “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MCs, é um disco obrigatório em qualquer coleção. Mas perdi o que eu tinha.

Amo os Beatles com todas as minhas forças e ando pra cima e pra baixo com uma camiseta do Bob Dylan, pra tentar me recuperar de um passado tenebroso que inclui o já citado Negritude Júnior.

Tirei um ano sabático do futebol, mas se eu tivesse dinheiro pagava mil reais pra colocar minha cara na camisa do Timão. Se eu tivesse ainda mais dinheiro, colocava umas quatro fotos minhas na camisa. Se dinheiro não fosse problema, eu comprava logo o Palmeiras, só pra mandar todo mundo embora e acabar com aquele timinho de merda de uma vez.

Meu computador tem mais de seis mil músicas e eu não paguei um centavo por elas. Eu tenho um perfil no Orkut, me irrito com aquela porrada de propaganda e já tentei o Facebook. Não adiantou nada.

Pelas próximas sextas-feiras, eu vou ter esse espaço pra falar um pouco sobre cultura pop. Aliás, era o que eu devia ter feito hoje. Mas preferi mostrar o que ela fez comigo. É provável que você não concorde com grande parte do que eu escrever aqui. Por discordarem de algumas idéias, fui intimidado recentemente por fãs do NX Zero que ameaçaram cair em lágrimas por conta de resenha pouco favorável ao grupo do Di, Fi, Mi, Bi, sei lá. O meu cachorro não me obedece. Por que você acreditaria em mim?

Sexta-Feira, 03 Abril, 2009

INSUBSTITUÍVEL?

Quinze anos depois, lacuna deixada por Kurt Cobain ainda não tem substitutos à altura

Os versos escritos por Neil Young para a canção “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”, de 1979, fizeram ainda mais sentido em 8 de abril de 1994. Naquele dia, ao lado do corpo de Kurt Cobain, a polícia de Seattle, nos EUA, encontrou um bilhete que, entre outras coisas, dizia “it’s better to burn out than to fade away” (é melhor queimar de uma vez do que desaparecer aos poucos). Exames estipularam o dia 5 como provável data da morte do músico, causada por um tiro na boca dado pelo próprio Kurt. O maior ídolo do rock naquela época tinha se suicidado no auge da carreira.

Seattle é uma cidade fria e cinzenta do noroeste americano. No final da década de 80, bandas jovens que se apresentavam nos apertados clubes do local ganharam a proteção de uma pequena gravadora. A Sub Pop ficaria conhecida mais tarde como o berço do grunge, o último grande movimento do rock, responsável pelo nascimento de bandas como Mudhoney, Soundgarden, Pearl Jam e, principalmente, Nirvana.

“Bleach”, a estreia do grupo liderado por Kurt Cobain, foi lançado em 1988, mas a banda se tornaria protagonista da história da música de seu tempo apenas em 1991, quando “Nevermind” chegou às lojas embalado pelo riff simples, mas poderoso, de “Smells Like Teen Spirit”. “Eu fui pra lá no final de 1991, na semana de lançamento do ‘Nevermind’. Eu tinha marcado uma entrevista com eles do Brasil, antes de viajar, mas era algo simples, ninguém os conhecia. Mas, quando cheguei, o disco tinha explodido”, lembra o jornalista André Barcinski, autor do livro “Barulho – Uma Viagem Pelo Underground do Rock Americano”, que acompanhou a gênese do grunge in loco durante a produção de sua obra e, de quebra, viu o Nirvana tomar o trono de Michael Jackson, que até então ocupava a primeira posição entre os discos mais vendidos com “Dangerous”.

A partir daí, a popularidade da banda só cresceria, assim como os problemas pessoais de Kurt, acompanhados praticamente em tempo real por seus fãs pelas lentes das televisões e dos fotógrafos. “Ele fez de tudo para ficar famoso, mas não segurou a barra”, acredita Barcinski. O comportamento autodestrutivo do músico, que se entupia de heroína para “curar” uma dor de estômago crônica, e a polêmica relação com sua esposa, a vocalista do Hole Courtney Love, apontavam para o trágico final de sua história. “Havia uma expectativa de que ia acabar acontecendo. Ele dava demonstrações de que a coisa não ia terminar bem”, afirma o jornalista Marcelo Orozco, que escreveu “Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia”.

Um mês antes de se matar, Kurt tinha sofrido uma overdose em um hotel em Roma, na Itália, que quase o levou a morte. De volta aos EUA, foi internado em uma clínica de reabilitação na Califórnia, de onde fugiu pouco depois e voltou para Seattle. Lá, comprou uma espingarda, trancou-se em uma sala em cima da garagem de sua casa, escreveu uma carta e, depois de se drogar, atirou na própria cabeça, aos 27 anos.

MITO

“Conheci gente que conviveu de perto com ele. O Kurt ficou mais paranóico, com problemas com droga e mania de perseguição”, conta Barcinski, sobre o período entre a explosão de “Nevermind” e a morte do vocalista, há 15 anos. “O sucesso mexeu com a cabeça dele, negativamente”, completa. “Com certeza, a morte dele o amplificou e o mitificou, sacramentou sua importância”, acredita Orozco. “Não deu tempo do Nirvana entrar em decadência”, afirma o jornalista. “Eles ainda estavam no auge, com todo mundo de olho, pelo sucesso, pelo impacto, por terem revigorado o rock, até comercialmente”.

Barcinski acredita que o Nirvana carregava todos os ingredientes que transformaram Kurt em uma lenda do rock após sua morte. “Era uma banda bem acima da média, com um vocalista carismático, que durou apenas cinco anos. Morrer velho e milionário não faz de ninguém um mito”, diz ele.

LACUNA

As mudanças pelas quais a música passa nos últimos anos fizeram surgir uma lacuna após a morte de Kurt que até agora não foi preenchida. “O Nirvana foi o último triunfo de uma banda pré-Internet. Eles conseguiram a centralização das coisas”, afirma Orozco.

Com a Internet, a música se espalhou. Em vez de um grande ídolo, que assuma o foco dos negócios, surgem muitas pequenas estrelas, com brilho bem menor do que o necessário para ocupar o espaço em aberto. “E as pessoas que poderiam assumir, como o Thom Yorke (vocalista do Radiohead), são muito avessas a isso”, analisa Barcinski. Para Orozco, o lugar deixado por Kurt permanecerá sem substituto. “É bem difícil que isso volte a acontecer, com grandes nomes que dominam uma época”.

It's better to burn out tha to fade away

It's better to burn out than to fade away

Teorias de conspiração

Desde o momento em que a morte de Kurt Cobain foi anunciada, as teorias sobre um possível assassinato começaram a surgir. O caso foi encerrado como sendo suicídio, cometido provavelmente dia 5 de abril, com margem de erro de até 24 horas, de acordo com legistas. Mas as discussões não terminaram com as conclusões da polícia americana. A viúva de Kurt, Courtney Love, continua como a principal suspeita de quem acredita que o músico não se matou.

Uma das vozes que fala mais alto sobre esse suposto complô que arquitetou a morte do vocalista do Nirvana é o detetive particular Tom Grant. Em 3 de abril de 1994 ele foi contratado por Courtney para procurar o marido, que havia fugido de uma clínica para recuperação de drogados dois dias antes. Após o corpo de Kurt ser encontrado na sala sobre a garagem de sua casa, dia 8 daquele mês, Grant continuou suas investigações particulares, apesar de a polícia dar o caso como encerrado.

Em seu site (www.cobaincase.com), Grant acusa nominalmente a viúva de Kurt e o amigo dela, Michael Dewitt, de terem tramado a morte do líder do Nirvana. Na página, apresenta indícios que comprovariam sua tese. Segundo Grant, Kurt desejava se divorciar de Courtney em suas últimas semanas de vida. Outra prova seria um cartão de crédito de Kurt que estava sumido e foi utilizado depois de sua morte, mas não mais depois que o corpo foi encontrado. Além disso, exames mostraram que a quantidade de heroína encontrada no sangue do músico era três vezes maior do que o necessário para uma overdose, o que o incapacitaria de erguer uma arma pesada e atirar na própria cabeça.

Como nada é por acaso, Grant vende, em seu site, relatório de suas investigações por US$ 49. É possível, porém, encontrar os documentos, com as supostas evidências e fotografias, em arquivos gratuitos na Internet. Outro site que defende a tese do envolvimento de Courtney em um possível assassinato é o www.justiceforkurt.com, que conta com uma detalhada linha do tempo e arquivos da polícia de Seattle e encabeça uma campanha para pressionar as autoridades americanas a reabrirem o caso.

Estante

Livros

Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia
autor: Marcelo Orozco
Editora: Conrad
O autor analisa e comenta as músicas do Nirvana e as letras de Cobain, ligando-as à cronologia da vida do vocalista.

Mais Pesado Que o Céu – Uma Biografia de Kurt Cobain
Autor: Charles R. Cross
Editora: Globo
Considerada por muitos a principal publicação focada na vida de Kurt Cobain, com base em cerca de 400 entrevistas, será adaptada para o cinema.

DVDs

Últimos Dias
Diretor: Gus Van Sant
Distribuidora: Warner Home Vídeo
O cultuado diretor conta os últimos dias de Kurt Cobain em forma de romance nesta ficção protagonizada por Michael Pitt.

Nirvana: Unplugged in New York
Distribuidora: Universal Music
Gravado cinco meses antes da morte de Cobain, o show produzido pela MTV é um emocionante réquiem do vocalista.

Sites

www.nirvanaclub.com
Reúne grande quantidade de material sobre a banda, como cifras, artigos, vídeos, fotos.

www.livenirvana.com
Site com arquivo de set lists, locais e datas das apresentações da banda, além de detalhes de sessões de gravação e aparições na TV e no rádio.

Publicado no Jornal TodoDia, em 03/04/2009

Quinta-feira, 02 Outubro, 2008

Sob a luz dos holofotes

John Mayer anda ganhando mais destaque na mídia ultimamente por seu fracassado romance com Jennifer Aniston, a Rachel de Friends e uma das queridinhas de Hollywood. Uma pena, pra ele. Não só porque ele perdeu uma das mulheres mais cobiçadas deste canto do universo, mas principalmente porque o John Mayer “Celebridade” acabou eclipsando o John Mayer “Músico”, justamente no momento em que chega às lojas o ótimo “Where The Light Is”, Cd e Dvd gravado ao vivo no Nokia Theatre, em Los Angeles, no final do ano passado.

O disco corre por uma linha pouco usual e que se mostra uma acertada escolha ao dividir a apresentação entre as três facetas do cantor que, a princípio, tem apenas um violão da mítica Martin & Co como companhia. A sessão acústica do show tem uma sequência de belas canções, entre elas “Daughters”, que termina no cover de “Free Fallin’”, de Tom Petty, com suporte dos guitarristas David Ryan Harris e Robbie Mcintosh. A versão escorrega ao deixar de lado o refrão a plenos pulmões que Tom Cruise imortalizou em uma das cenas de “Jerry Maguire”.

Mayer se despede do público e do clima intimista para voltar ao palco pouco depois junto com o baixista Pino Paladino e do baterista Steve Jordan para um set de seu John Mayer Trio. “Everyday I Have The Blues” deixa claro qual será a pegada da segunda parte do concerto, com notas precisas como da bela e longa “Out Of My Mind”, em que o cantor pede “Can I play my guitar?/ Can I play louder?” (Posso tocar minha guitarra?/ Posso tocar mais alto?).

O trio ainda se aventura por perigosas versões de canções de Jimi Hendrix. “Wait Until Tomorrow” esquenta o público sem decepcionar e “Bold As Love” é a deixa para um novo intervalo que, desta vez, termina com Mayer acompanhado de sua banda completa para a última das três partes da apresentação.
No mais longo dos sets, é a balada “Gravity” que chama a atenção, ao ser introduzida pelos primeiros versos de “I’ve Got Dreams To Remember”, de Ottis Redding.

“Where The Light Is” se mostra um bom disco, inclusive para quem pouco conhece da carreira de Mayer. Para os fãs, o dvd é um presente. As imagens captadas pelo diretor Danny Clinch, responsável também pelo gravação do acústico “Skin and Bones”, do Foo Fighters, mostram o músico extremamente confortável no palco, mas exalando nervosismo nos bastidores. Pequenos trechos de uma entrevista em que Mayer discorre sobre a carreira são colocados entre algumas músicas. Só não precisavam ser tão econômicos nos extras, que traz apenas uma apresentação com vários ângulos de “Who Did You Think I Was” e algumas imagens de Mayer tocando “Slow Dancing In A Burning Room” com a cidade de Los Angeles ao fundo.

Disco 1

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1. Neon
2. Stop This Train
3. In Your Atmosphere
4. Daughters
5. Free Fallin´
6. Everyday I Have The Blues
7. Wait Until Tomorrow
8. Who Did You Think I Was
9. Come When I Call
10. Good Love Is On The Way
11. Out Of My Mind
12. Vultures
13. Bold As Love

Disco 2

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1. Waiting On The World To Change
2. Slow Dancing In A Burning Room
3. Why Georgia
4. The Heart Of Life
5. I Don´t Need No Doctor
6. Gravity
7. I Don´t Trust Myself (With Loving You)
8. Belief
9. I´m Gonna Find Another You

Quarta-feira, 01 Outubro, 2008

Novas

O novo disco da série de Bootlegs de Bob Dylan pode ser ouvido inteirinho em streaming no NPR.org. Tell Tale Signs será lançado no dia 7 de outubro e reúne raridades e takes alternativos de canções das gravações do Oh Mercy (1989) ao Modern Times (2006). A demo de Dignity, só no piano, é maravilhosa.

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O Oasis também resolveu liberar seu novo disco pra audição na internet, mais precisamente no MySpace da banda. Um pouco tarde, já que Dig Out Your Soul já tá na rede faz um tempo. Nas lojas, ele chega um dia antes do de Bob Dylan. Não é um Definately Maybe, mas é bom, muito bom…

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Segunda-feira, 29 Setembro, 2008

Alta Fidelidade

‘Vinilmaníacos’

Na metade final dos anos 90, Rob Gordon é o frustrado proprietário de uma loja de discos, a “Championship Vinyl”, no subúrbio de Chigago. Ocupação que não constava em sua lista de cinco empregos dos sonhos. Após ser abandonado pela namorada, Rob passas algumas horas sozinho em seu apartamento reorganizando sua coleção de LPs. É quando Dick, um de seus funcionários e amigo, invade a sala e encontra Rob rodeado por milhares de discos.

“Parece que você está reorganizando seus discos. De que forma? Cronológica?”, pergunta Dick. “Não”, responde Rob. “Não é alfabética”, deduz o amigo. “Não. Autobiográfica”, revela Rob.

A cena faz parte do filme “Alta Fidelidade”, de 2000, uma adaptação do livro de mesmo nome do inglês Nick Hornby, um dos clássicos recentes da cultura pop. Entre listas de “Top Five” e a tentativa de reconquistar Laura, Rob (John Cusack) demonstra seu amor pela música e, em especial, pelos discos de vinil. A ponto de lincar os de sua coleção com passagens importantes de sua própria vida.

Apesar dos cerca de 10 anos que separam a época em que a história é contada e hoje, o amor pelas bolachas pretas resiste, mesmo que, nesse período, o CDs tenham tido tempo para se firmar e, logo depois, sucumbir aos arquivos digitais disponíveis na internet, que têm os contraditórios papéis de vilão para uns, e esperança para outros.

A ligação afetiva que Rob tem com seus discos é semelhante a do tatuador Mauro Gregório Júnior, 35, que ainda reserva um espaço em sua casa para acomodar sua coleção. “Ganhei meu primeiro vinil em 1982, aos nove anos. Tinha um tio que morava com a gente e ele ouvia muito Led Zeppelin, Black Sabbath, e eu comecei a gostar de rock. Um dia assisti a um show do Kiss na TV e meu pai decidiu me presentear com o “Creatures Of The Night”, que era o disco daquela turnê”, lembra Mauro. “Eu ouvia até gastar. Era muito novo pra ir em shows e me contentava com os vinis”, conta ele.

Com sua velha vitrola sem agulha, há algum tempo Mauro só consegue mesmo olhar para as capas de seus discos, a maioria de rock pesado dos anos 80. “Mas pelo menos uma vez por mês eu pego pra dar uma geral”, diz, sem esconder a preferência pelos LPs. “Os graves são mais definidos e tem aquela chiadeira clássica”, explica.

O radialista, jornalista, DJ, VJ e músico Antonio Carlos Senefonte carrega sua paixão pelos discos no próprio nome. Desde a década de 80 sob a alcunha de Kid Vinil, ele é considerado uns dos grandes especialistas brasileiros do gênero que tem Elvis Presley como Rei, tanto que acaba de lançar, pela Ediouro, o livro “Almanaque do Rock”. “Pertenço a uma geração que pensa no formato. Capa, arte, informação, letra. Tudo faz parte do conjunto. É como pegar uma obra de arte”, afirma o agora, também, escritor.

Entre os cerca de 20 mil discos que ocupam as prateleiras de sua casa, Kid tem dificuldade em escolher o preferido. “O Álbum Branco dos Beatles”, elege ele, depois de pensar um pouco. Mauro tem mais facilidade em apontar os melhores de sua coleção. À frente, o EP “Sjunger Sigge  Furst”, lançado em 1993 pelo Candlemass, uma obscura banda sueca de metal. “Só saíram duzentas cópias”, diz ele, mostrando a informação que consta na contra-capa do disco.

“Eu gosto e coleciono desde moleque. Tenho esses e ainda compro pela internet. Mas é pra colecionador. O jovem quer colocar a música no iPod e sair ouvindo”, afirma Kid.

Mauro ganhou o primeiro vinil aos nove anos; paixão continua até hoje

Mauro ganhou o primeiro vinil aos nove anos; paixão continua até hoje

Novos discos, velho formato

Decretado como um produto moribundo do final do século 20, o disco de vinil sobrevive graças a uma aura de cultuação formada a sua volta. Até mais do que isso. Na contramão do que acontece com o CD, os LPs experimentam um período de aumento nas vendas nos EUA. Só em 2007, as encomendas cresceram cerca de 37%, de acordo com matéria do jornal The New York Times do fim de agosto.

Apesar de ainda representar pouco na indústria da música, esses dados têm um perfil interessante. Não são os velhos álbuns sendo relançados no velho formato. São novidades de nomes respeitados, como Bob Dylan, que terá o disco “Tell Tale Signs”, em uma versão com quatro LPs, à venda a partir da próxima semana. A experiência já se mostrou recompensadora para bandas como Wilco, que vendeu 14 mil cópias em vinil de “Sky Blue Sky” no ano passado – o dobro do que já é considerado um sucesso para as bolachas.

Em um de seus blogs, o Listening Post, a revista americana Wired informou, em post de outubro de 2007, que o eBay, maior site de leilões virtuais do mundo, negocia cerca de um LP a cada dez segundos. Se esse ritmo for constante, são mais de três milhões de discos que trocam de mão a cada ano.

O radialista Kid Vinil é um dos que contribuem para esses números. Ele recebeu nos últimos dias os LPs de Bob Dylan que comprou pelo site. Em suas viagens, ele também não perde a chance de aumentar a coleção.
“Eu sempre compro, as feiras em Londres são muito boas”, afirma.

No Brasil a situação é bem diferente. Mas alguns artistas, como Lenine, não desistem do vinil. O pernambucano acabou de lançar seu novo álbum, “Labiata”, também em LP. Mas para isso precisou fabricár e importar um lote de mil cópias dos EUA, já que a última fábrica de discos de vinil do Brasil, a Polysom, fechou as portas no começo deste ano.

Algumas lojas, como a Livraria Cultura, vendem discos novos. Importados, eles acabam com preço ao consumidor muito fora da realidade brasileira. É comum que alguns ultrapassem os R$ 100. Dessa forma, não há muitas saídas pra quem quer descolar um vinil a não ser em sebos e lojas especializadas.
O comerciante Wilton Marchine Christiano, 46, é dono de uma das mais tradicionais lojas de discos de Americana. Criada há 25 anos, a Heavy Metal Rock começou com o vinil, “que era o que tinha na época”, conta Wilton. Algumas prateleiras ainda têm os discões à venda. “Tem uma procura legal, com uma moçadinha nova. Gente que nem tinha nascido quando o vinil acabou”, diz.

Wilton, que guarda 400 discos em casa, vê uma relação entre o fim do vinil e a crise no cenário musical mundial, em que bandas nascem e somem na mesma rapidez. “Essa molecada que baixa música e depois deleta, pra eles é tudo muito descartável. Quando comecei a gostar de rock, na década de 70, tinha que ir pra Campinas comprar disco. Essa dificuldade valoriza”, acredita Wilton.

Wilton guarda 400 discos em casa

Wilton guarda 400 discos em casa

Pelo tombamento da Polysom

Criada em 1999, quando os discos de vinil já tinham atestado de óbito, a Polysom resistiu bravamente até o início deste ano. Foi quando a última fábrica de LPs do País fechou as portas na cidade de Belford Roxo (RJ). Com capacidade para prensar até cinco mil discos por dia, a fábrica chegou a fazer 110 mil cópias de um único álbum em 1999. Pouco antes de falir, esse número caiu para cerca de 23 mil por ano.

No ano passado, o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil apoiou um projeto para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprove o tombamento da Polysom. Para o representante da Secretaria de Políticas Culturais do MinC (Ministério da Cultura), Alvaro Malaguti, o processo é complicado. “Trata-se de uma operação muito difícil, pois a empresa possui dívidas com a Receita Federal, governo estadual e fornecedores privados. Além disso, o MinC nunca tinha trabalhado com a recuperação de uma fábrica”, afirma ele.

“No momento o Ministério está empenhado em realizar e custear a elaboração de um estudo detalhado sobre a situação da fábrica que contemple aspectos do presente, como valor dos equipamentos que a empresa ainda possui mas também do futuro, como qual é a demanda mínima de prensagem que a fábrica tem que ter para se manter funcionando sem prejuízo”, completa ele.

Publicado no Jornal TodoDia, em 28/09/2008

Sexta-Feira, 11 Julho, 2008

‘Hoje não é um dia de pragas’

Com unhas imensas, cartola e capa negras, José Mojica Marins comparece à estréia de seu novo filme, em Paulínia, e é aplaudido pelo público

Se eram aplausos o que o cineasta José Mojica Marins precisava para se sentir realizado com seu novo projeto, é provável que ele tenha deixado o Theatro Municipal de Paulínia em êxtase, quarta-feira. Sua aparição no I Festival Paulínia de Cinema, para a apresentação de seu novo longa, “Encarnação do Demônio”, foi o principal momento do evento até agora. Com a platéia completamente lotada, Mojica foi ovacionado ao entrar no local caracterizado como o personagem Zé do Caixão, protagonista do filme, com direito a unhas imensas, cartola e capa negras.

“Hoje não é dia de pragas”, disse ele, no palco. “Foram 42 anos que eu procurei resumir em uma página e meia”, continuou Mojica, tirando um papel do bolso de sua camisa e se referindo ao longo tempo entre a construção do roteiro, de 1966, e a conclusão do filme, que teve sua primeira apresentação pública quarta-feira. E ele não só leu, mas interpretou cada palavra escrita na folha amassada.

Em seu discurso, contou toda a história da produção de um filme que ele nunca conseguia levar adiante, fazendo o público gargalhar ao relatar como cada um dos produtores que fariam o longa morreram após demonstrar interesse pela empreitada, como em uma maldição. Tanto que, ao receber o convite do produtor e montador Paulo Sacramento, em 2000, ficou feliz ao saber que ele era casado e tinha filhos. “É muita gente para morrer”, contou, aliviado.

Depois de insistir nas possíveis conseqüências que “Encarnação” teria em mulheres grávidas e nas crianças, Mojica, ou melhor, Zé do Caixão, vociferou: “Esse filme terá continuação no seu pesadelo”. Foi a deixa para o início da projeção da terceira parte da saga do personagem, iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e que continuou três anos depois, com “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.

Mas nem mesmo os recursos em abundância – muitas vezes maiores do que o mais gordo orçamento com que já contou -, fizeram Mojica abandonar seu velho estilo. Quase nada de computação gráfica, e muita aranha, barata e um grande porco desossado que serviu de casulo para uma das personagens em uma seqüência empolgante.

No filme, Zé do Caixão deixa a prisão depois de 40 anos e retoma sua busca pela mulher que deverá gerar seu filho perfeito. Ainda mais violento do que quando aterrorizou pequenas cidades na década de 60, o coveiro protagoniza cenas fantásticas e de visual caprichado, como uma em que faz amor com uma de suas escolhidas durante uma tempestade de sangue ou na que cumpre a promessa de que sua vítima não veria o horror pelo qual passaria tapando seus olhos com o próprio couro cabeludo. Essa última fez o público reagir com calorosos aplausos.

Desnecessário dizer que “Encarnação do Demônio” não é digerido por todos os estômagos. Mas coroa a carreira de um cineasta que precisou vender casa e móveis para rodar seu primeiro clássico, que sofreu com a censura em “Esta Noite” e que conta com a simpatia e de um público que pouco – ou nenhum – contato teve com sua obra. “Esse filme era coisa que o cinema estava devendo para esse homem, e nós conseguimos”, disse Sacramento. O público de Paulínia parece ter concordado.

Zé do Caixão - Encarnação do Demônio

Encarnação do Demônio

Publicado no Jornal TodoDia, em 11/07/2008

Quarta-feira, 09 Julho, 2008

Terror à solta

Ou a volta do Maldito

“Encarnação do Demônio” é o principal destaque de hoje no I Festival Paulínia de Cinema e traz de volta o sanguinário Zé do Caixão

Foram 40 anos de espera, vários roteiros reescritos e um personagem insubstituível. Mas Zé do Caixão rogará suas pragas por Paulínia, hoje à noite, na estréia do terceiro filme de sua saga, “Encarnação do Demônio”, principal destaque da programação de hoje do I Festival Paulínia de Cinema. Mas isso ainda não é o suficiente para que o cineasta José Mojica Marins, que também dá vida ao coveiro assassino, se sinta realizado. “Isso pode se concretizar em Paulínia, se eu sentir que o público gostou”, disse ele em entrevista exclusiva ao TodoDia , na tarde de ontem (leia mais sobre Mojica na página 5).

O filme, um dos mais esperados do festival, faz parte da mostra competitiva de longa-metragem de ficção e terá sua primeira apresentação pública na noite de hoje. E Mojica se mostra ansioso com a estréia. “Vai ser difícil dormir”, afirmou. “Minha religião é o cinema, mas minha satisfação é o público”, disse, surpreso ao saber que a expectativa é de que o Theatro Municipal de Paulínia esteja totalmente ocupado para a exibição do longa, às 20h.

Mas não é para menos. “Encarnação do Demônio” tem o maior orçamento entre os filmes dirigidos por Mojica – cerca de R$ 5 milhões. “Isso para mim é gigantesco. Até então, o maior era de R$ 120 mil”, conta o cineasta, que teve a colaboração de 70 técnicos durante as filmagens, número bem acima dos 12 a que ele estava acostumado. Isso, porém, não foi suficiente para que Mojica abandonasse seus velhos métodos na hora das filmagens. “Só usei computador para fazer o céu vermelho. Tudo é artesanal”, contou, citando a cena em que 3 mil baratas – “reais, de laboratório” – tomam de assalto o corpo de uma das personagens.

Nesta nova seqüência, Zé do Caixão continua sua busca pela mulher que será a mãe de seu filho perfeito. Para isso, ele espalhará terror pela cidade de São Paulo, abandonando cenários rurais e bucólicos de seus dois primeiros filmes – “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver” (1967). Depois de 40 anos preso, ele volta ainda mais sanguinário. “Está está mais envelhecido, mas também mais inteligente e violento, porque enfrentamos uma época violenta”, afirmou Mojica.

No elenco, veteranos como o ator Jece Valadão, que faleceu em 2006, pouco após as gravações, dividem a tela com novos nomes como o de Milhem Cortaz. “‘Encarnação’ é a minha obra-prima”, garante o cineasta. O longa tem data de estréia no circuito comercial marcada para 8 de agosto.

Personagem por acaso

Por sugestão de um maquiadores, Mojica encarnou Zé do Caixão e tornou-se uma das figuras mais conhecidas do cinema nacional

A espera por “Encarnação do Demônio”, roteirizado em 1966 e com exibição marcada para hoje no I Festiva Paulínia de Cinema, explica-se pela história do personagem. Zé do Caixão apareceu pela primeira vez em 1964, no clássico do terror “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. Mas a produção foi cheia de problemas, começando pelo lado financeiro. “Vendi a casa e os móveis”, lembra José Mojica Marins, que rodou o filme em apenas 13 dias, que era o tempo que podia pagar.

Ele também não tinha um ator para interpretar o personagem principal. Sua primeira opção foi Milton Ribeiro, que viveu Galdino em “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Mas ele recusou o papel por não querer associar sua imagem a um filme de baixo orçamento. Foi aí que um dos maquiadores sugeriu que o próprio Mojica interpretasse Zé do Caixão. “Eu topei e mandei comprar uma camisa preta”, lembrou.

Isso tudo porque, durante um jantar, Mojica adormeceu e teve um pesadelo em que se via sendo levado para uma gruta por um vulto preto e, lá, encontrou uma lápide com seu nome. “Debruçado na mesa, meu corpo mexia”, disse. Quando acordou, correu para escrever o resumo daquele que seria seu próximo filme, o primeiro com um dos personagens mais famosos do cinema nacional.

Apesar das dificuldades, o filme foi bem aceito pelo público e rendeu uma continuação. “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” chegou aos cinemas três anos depois, mas sofreu com a censura. A cena final, em que Zé do Caixão rejeita Deus, teve que ser refeita. “Até o diálogo eles me mandaram”, afirmou. “E aqueles 30 segundos finais ficaram sem razão de ser”, lamentou o cineasta, sobre a parte em que o coveiro pede a cruz a um padre para se redimir de seus crimes. A cena, como estava escrita no roteiro, entra agora no novo filme. Um dublê americano foi contratado para recriá-la. “Ele é parecidíssimo comigo aos 30 anos”, garantiu ele.

Mojica também lamenta que o público hoje tenha pouco acesso à sua obra. “Agora, com ‘Encarnação’, todo mundo vai querer ver os outros dois”, acredita ele, que aceita ser chamado de “um dos cineastas mais cultuados do País”. “Os jovens falam isso. Eu realmente estou de bem com todo mundo”, afirmou. “O trash virou cult”, disse.

Publicado no Jornal TodoDia, em 09/07/2008

Sexta-Feira, 16 Maio, 2008

Tô famoso

Cada vez mais a internet transforma anônimos em celebridades-relâmpago e ajuda a alavancar carreiras despretensiosas

Caruaru é uma cidade mediana do agreste pernambucano, com pouco mais de 250 mil habitantes. Segundo o Google Maps, uma viagem de Campinas até a cidade leva cerca de um dia e seis horas – em uma previsão extremamente otimista -, através de aproximadamente 2.484 quilômetros de estradas que cortam cinco Estados brasileiros. Caruaru é muito conhecida pelo forró e por seus artesanatos, além de ser a terra de Givanildo Silveira, Jeremias José e Ivanildo Holanda dos Santos, o famoso Caninha, o filho de Guéga.

Mallu Magalhães é só uma garotinha ainda. Mas já carrega nos ombros certa pressão depois que ganhou as páginas dos suplementos culturais dos maiores jornais do País e ao fazer shows lotados mesmo sem nunca ter lançado um disco sequer. Ao contrário de Mallu, Alexandre Inagaki já passou dos 30. Seus textos são mais lidos do que a maioria dos jornais brasileiros, apesar dele pouco escrever em periódicos que sujam as mãos de tinta.

Você, leitor, já deve ter ouvido falar desses personagens. A não ser que tenha se mantido recluso em algum canto do País em que não exista conexão com a internet nos últimos anos. Todos eles são hits da rede, alguns até de forma involuntária. Ainda assim, conseguiram, com a ajuda da web, deslanchar em suas carreiras – ou, ao menos, alcançaram alguns minutos de fama.

“A gente não esperava isso não”, conta Givanildo Silveira, repórter policial do programa Sem Meias Palavras, da TV Jornal de Caruaru, uma das retransmissoras do SBT em Pernambuco. “Um menino que trabalhava com a gente teve a idéia de montar o site e colocar os vídeos das reportagens. Até que um deles apareceu no Kibe Loco. Aí, meu amigo…”, conta ele. O vídeo a que Givanildo se refere é a matéria em que ele mostra Jeremias José, um morador da cidade que foi preso completamente embriagado enquanto dirigia sua moto. Na delegacia, Jeremias contou que veio do inferno e que “foi o cão quem butô (sic) pra nóis (sic) beber”. Depois ainda disse que “se pudesse, matava mil” e cantou um clássico do cantor brega Ovelha.

Pronto. Foi o que bastou para que as ocorrências policiais do bairro do Salgado e do Sítio Murici, em Caruaru, se tornassem conversas obrigatórias em qualquer rodinha de amigos. “A primeira foi a do Jeremias. Depois vieram as do Caninha e do Leonaldo. Eu vejo sempre o Jeremias por aí, e ele não largou da bebida não. O Caninha fiquei sabendo que parou”, conta ele. “Rapaz, uma vez, na praia, em Alagoas, um pessoal de São Paulo me reconheceu. ‘Olha lá o repórter do Jeremias’, eles falavam”, lembra.

Givanildo Silveira, o repórter policial “engraçadinho” de Caruaru, bomba no YouTube com reportagens como a que fez com o ébrio Jeremias José

Não é difícil saber o porquê da fama. As reportagens de Givanildo, carregadas de humor, já foram vistas por milhões de pessoas. No YouTube, a procura por “Sem Meias Palavras” resulta em 753 vídeos, muitos deles vistos mais de um milhão de vezes. “Eu procuro meu nome no Google e tem um monte de coisa”, diz. Além da fama repentina, a vida de Givanildo não sofreu muitas mudanças. Ele continua trabalhando no mesmo lugar, fazendo as mesmas reportagens. “Algumas ainda mais engraçadas”, garante ele, que promete para breve um novo site para que as matérias inéditas possam ganhar a internet também.

Já a vida da pequena Maria Luiza Arruda Botelho Pereira Magalhães deu “aquela desregulada” nos últimos meses, como ela diz. Em seu último aniversário, de 15 anos, decidiu trocar a festa de debutante por algumas horas em um estúdio de São Paulo para gravar suas composições. “Ah, um amigo meu falou: ‘porque você não põe no MySpace?’. Aí eu pensei: ‘É!’, pra ver no que dava”. E deu. Mallu foi descoberta, estampou jornais e revistas do País inteiro, foi entrevistada por Jô Soares e fez shows em que centenas de pessoas tiveram que ficar pra fora por falta de espaço.

E seu primeiro disco, independente, só deve sair em setembro. “Ando meio sem tempo desde que tudo isso começou, mas sempre há um jeito de arranjar uma deixa pra tocar, pintar e fazer a lição de casa”. Ah, é. Mallu ainda precisa estudar, como garotas de sua idade fazem. “As coisas mudam e se você tiver um grande sonho, tem de mudar também, mas nunca deixar de ser você”, filosofa a garota, que canta e compõe em inglês as canções que já receberam mais de 760 mil plays no MySpace (www.myspace.com/mallumagalhaes), como “Tchubaruba” e “J1”.

O diretor de marketing do MySpace Brasil, Haryston Oliveira, revela qual foi o segredo que fez com que Mallu se tornasse esse fenômeno da internet. “Assim como ela fez, é preciso manter a rede ativa, com muitas atualizações. Tem que ter um bom trabalho e fazer a rede funcionar”, explica ele. São cerca de 75 mil perfis de bandas nacionais no MySpace, que já se tornou obrigatório para quem quer viver da música. “Os três perfis brasileiros mais acessados são o do Nx Zero, da Marisa Monte e do Marcelo D2, o que mostra que atingimos todos os públicos”, afirma.

Alexandre Inagaki pintou na internet quando ela ainda “engatinhava” no Brasil. Começou a publicar seus textos em 1999. Mas foi em 2002 que ele criou o seu filho mais adorado. Hoje, o blog de Inagaki, o “Pensar Enlouquece… Pense Nisso”, tem uma média de 200 mil acessos por mês e 3.800 assinantes de RSS. Na quarta-feira, o Technorati, espécie de Google dos blogs, registrava exatas 3.458 citações ao “Pensar Enlouquece”.

“Foi uma ferramenta que facilitou a publicação dos meus textos”, diz Inagaki, que lucra com a empreitada. “O blog representa até 15% das minhas receitas mensais. E, por causa dele, já recebi convites para colaborar com várias revistas e jornais”, conta.

“Um blog é legal quando é escrito sem maiores preocupações. Tem que escrever sobre o que gosta”, aconselha. “O conteúdo acaba sendo valorizado naturalmente”, completa ele, que credita seu sucesso ao famoso boca-a-boca, ou, como ele prefere, o “mouse-a-mouse”.

mallu magalhaes

Mallu Magalhães colocou suas composições no MySpace, foi entrevistada pelo Jô e está com a agenda lotada de shows

Publicado no Jornal TodoDia, em 16/05/2008