Quinze anos depois, lacuna deixada por Kurt Cobain ainda não tem substitutos à altura
Os versos escritos por Neil Young para a canção “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”, de 1979, fizeram ainda mais sentido em 8 de abril de 1994. Naquele dia, ao lado do corpo de Kurt Cobain, a polícia de Seattle, nos EUA, encontrou um bilhete que, entre outras coisas, dizia “it’s better to burn out than to fade away” (é melhor queimar de uma vez do que desaparecer aos poucos). Exames estipularam o dia 5 como provável data da morte do músico, causada por um tiro na boca dado pelo próprio Kurt. O maior ídolo do rock naquela época tinha se suicidado no auge da carreira.
Seattle é uma cidade fria e cinzenta do noroeste americano. No final da década de 80, bandas jovens que se apresentavam nos apertados clubes do local ganharam a proteção de uma pequena gravadora. A Sub Pop ficaria conhecida mais tarde como o berço do grunge, o último grande movimento do rock, responsável pelo nascimento de bandas como Mudhoney, Soundgarden, Pearl Jam e, principalmente, Nirvana.
“Bleach”, a estreia do grupo liderado por Kurt Cobain, foi lançado em 1988, mas a banda se tornaria protagonista da história da música de seu tempo apenas em 1991, quando “Nevermind” chegou às lojas embalado pelo riff simples, mas poderoso, de “Smells Like Teen Spirit”. “Eu fui pra lá no final de 1991, na semana de lançamento do ‘Nevermind’. Eu tinha marcado uma entrevista com eles do Brasil, antes de viajar, mas era algo simples, ninguém os conhecia. Mas, quando cheguei, o disco tinha explodido”, lembra o jornalista André Barcinski, autor do livro “Barulho – Uma Viagem Pelo Underground do Rock Americano”, que acompanhou a gênese do grunge in loco durante a produção de sua obra e, de quebra, viu o Nirvana tomar o trono de Michael Jackson, que até então ocupava a primeira posição entre os discos mais vendidos com “Dangerous”.
A partir daí, a popularidade da banda só cresceria, assim como os problemas pessoais de Kurt, acompanhados praticamente em tempo real por seus fãs pelas lentes das televisões e dos fotógrafos. “Ele fez de tudo para ficar famoso, mas não segurou a barra”, acredita Barcinski. O comportamento autodestrutivo do músico, que se entupia de heroína para “curar” uma dor de estômago crônica, e a polêmica relação com sua esposa, a vocalista do Hole Courtney Love, apontavam para o trágico final de sua história. “Havia uma expectativa de que ia acabar acontecendo. Ele dava demonstrações de que a coisa não ia terminar bem”, afirma o jornalista Marcelo Orozco, que escreveu “Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia”.
Um mês antes de se matar, Kurt tinha sofrido uma overdose em um hotel em Roma, na Itália, que quase o levou a morte. De volta aos EUA, foi internado em uma clínica de reabilitação na Califórnia, de onde fugiu pouco depois e voltou para Seattle. Lá, comprou uma espingarda, trancou-se em uma sala em cima da garagem de sua casa, escreveu uma carta e, depois de se drogar, atirou na própria cabeça, aos 27 anos.
MITO
“Conheci gente que conviveu de perto com ele. O Kurt ficou mais paranóico, com problemas com droga e mania de perseguição”, conta Barcinski, sobre o período entre a explosão de “Nevermind” e a morte do vocalista, há 15 anos. “O sucesso mexeu com a cabeça dele, negativamente”, completa. “Com certeza, a morte dele o amplificou e o mitificou, sacramentou sua importância”, acredita Orozco. “Não deu tempo do Nirvana entrar em decadência”, afirma o jornalista. “Eles ainda estavam no auge, com todo mundo de olho, pelo sucesso, pelo impacto, por terem revigorado o rock, até comercialmente”.
Barcinski acredita que o Nirvana carregava todos os ingredientes que transformaram Kurt em uma lenda do rock após sua morte. “Era uma banda bem acima da média, com um vocalista carismático, que durou apenas cinco anos. Morrer velho e milionário não faz de ninguém um mito”, diz ele.
LACUNA
As mudanças pelas quais a música passa nos últimos anos fizeram surgir uma lacuna após a morte de Kurt que até agora não foi preenchida. “O Nirvana foi o último triunfo de uma banda pré-Internet. Eles conseguiram a centralização das coisas”, afirma Orozco.
Com a Internet, a música se espalhou. Em vez de um grande ídolo, que assuma o foco dos negócios, surgem muitas pequenas estrelas, com brilho bem menor do que o necessário para ocupar o espaço em aberto. “E as pessoas que poderiam assumir, como o Thom Yorke (vocalista do Radiohead), são muito avessas a isso”, analisa Barcinski. Para Orozco, o lugar deixado por Kurt permanecerá sem substituto. “É bem difícil que isso volte a acontecer, com grandes nomes que dominam uma época”.

It's better to burn out than to fade away
Teorias de conspiração
Desde o momento em que a morte de Kurt Cobain foi anunciada, as teorias sobre um possível assassinato começaram a surgir. O caso foi encerrado como sendo suicídio, cometido provavelmente dia 5 de abril, com margem de erro de até 24 horas, de acordo com legistas. Mas as discussões não terminaram com as conclusões da polícia americana. A viúva de Kurt, Courtney Love, continua como a principal suspeita de quem acredita que o músico não se matou.
Uma das vozes que fala mais alto sobre esse suposto complô que arquitetou a morte do vocalista do Nirvana é o detetive particular Tom Grant. Em 3 de abril de 1994 ele foi contratado por Courtney para procurar o marido, que havia fugido de uma clínica para recuperação de drogados dois dias antes. Após o corpo de Kurt ser encontrado na sala sobre a garagem de sua casa, dia 8 daquele mês, Grant continuou suas investigações particulares, apesar de a polícia dar o caso como encerrado.
Em seu site (www.cobaincase.com), Grant acusa nominalmente a viúva de Kurt e o amigo dela, Michael Dewitt, de terem tramado a morte do líder do Nirvana. Na página, apresenta indícios que comprovariam sua tese. Segundo Grant, Kurt desejava se divorciar de Courtney em suas últimas semanas de vida. Outra prova seria um cartão de crédito de Kurt que estava sumido e foi utilizado depois de sua morte, mas não mais depois que o corpo foi encontrado. Além disso, exames mostraram que a quantidade de heroína encontrada no sangue do músico era três vezes maior do que o necessário para uma overdose, o que o incapacitaria de erguer uma arma pesada e atirar na própria cabeça.
Como nada é por acaso, Grant vende, em seu site, relatório de suas investigações por US$ 49. É possível, porém, encontrar os documentos, com as supostas evidências e fotografias, em arquivos gratuitos na Internet. Outro site que defende a tese do envolvimento de Courtney em um possível assassinato é o www.justiceforkurt.com, que conta com uma detalhada linha do tempo e arquivos da polícia de Seattle e encabeça uma campanha para pressionar as autoridades americanas a reabrirem o caso.
Estante
Livros
Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia
autor: Marcelo Orozco
Editora: Conrad
O autor analisa e comenta as músicas do Nirvana e as letras de Cobain, ligando-as à cronologia da vida do vocalista.
Mais Pesado Que o Céu – Uma Biografia de Kurt Cobain
Autor: Charles R. Cross
Editora: Globo
Considerada por muitos a principal publicação focada na vida de Kurt Cobain, com base em cerca de 400 entrevistas, será adaptada para o cinema.
DVDs
Últimos Dias
Diretor: Gus Van Sant
Distribuidora: Warner Home Vídeo
O cultuado diretor conta os últimos dias de Kurt Cobain em forma de romance nesta ficção protagonizada por Michael Pitt.
Nirvana: Unplugged in New York
Distribuidora: Universal Music
Gravado cinco meses antes da morte de Cobain, o show produzido pela MTV é um emocionante réquiem do vocalista.
Sites
www.nirvanaclub.com
Reúne grande quantidade de material sobre a banda, como cifras, artigos, vídeos, fotos.
www.livenirvana.com
Site com arquivo de set lists, locais e datas das apresentações da banda, além de detalhes de sessões de gravação e aparições na TV e no rádio.
Publicado no Jornal TodoDia, em 03/04/2009













