Foi quando eu descobri que seria corintiano até o meu último suspiro.
O Corinthians enfrentava o São Paulo no segundo jogo da final do Campeonato Brasileiro de 1990. O gol histórico do eterno amuleto Tupãzinho nos transformou no maior do Brasil pela primeira vez. Eu não estava no Morumbi nesse dia. Tinha apenas cinco anos e não fazia muita ideia do que acontecia por lá. Mas via tudo pela TV.
Não, mas não foi dessa vez ainda. Quer dizer, eu já estava bem encaminhado, mas ainda não tinha sido dessa vez. O problema é que eu tenho poucas lembranças do dia em que isso aconteceu de verdade. Talvez por eu ser ainda muito novo. Ou não. Talvez porque o momento em si falou mais alto. Provavelmente.
Na iminência de me apaixonar pelo Corinthians acima de qualquer outra coisa, eu já me sentia um corintiano. Tinha minhas camisetas, sabia cantar algumas músicas. Faltava vez ou outra da escola pra poder ir ao Pacaembu com meu tio. Eu também dizia pra todo mundo quem era meu ídolo: Neto.
Em 90, Neto acabou com o campeonato. Seus gols de falta empurraram aquele time que era mais guerreiro do que técnico, como manda a nossa tradição, ao primeiro título nacional do Corinthians. Cada vez que marcava um gol em minhas brincadeiras, eu tentava imitar sua comemoração. Aquela em que ele saía correndo, escorregava com os joelhos e erguia um dos braços, com o outro pra trás. Acabei me ralando algumas vezes.
Até que um dia ele foi pra Americana. É aí que minha memória começa a falhar. Não lembro quando foi. Tenho a impressão que foi no período em que ele esteve suspenso por ter dado uma cusparada no José Aparecido de Oliveira, juiz que apitava um clássico contra o Palmeiras em 1991. Acho também que foi durante uma das “Festas das Nações”, que aconteciam anualmente na cidade. Mas sei que foi na Fidam, um pavilhão de eventos que ficava perto da minha casa.
Não tenho a menor ideia do que o Neto foi fazer lá. Mas eu devo ter enchido o saco do meu pai o suficiente pra ele concordar em me levar pra vê-lo. Coloquei minha camisa do Corinthians, a número dois, listrada como a da final de 1977, e fui.
Lembro que o Neto estava sentado atrás de uma mesa e que tinha uma fila. Na minha vez, uma mulher disse que, para conseguir um autógrafo dele, era preciso comprar alguma coisa, que nem imagino o que era. Só sei que ela cortou meu barato da forma mais cruel possível, principalmente se tratando de uma criança de cinco anos.
Acho até que ela foi bastante sem educação nesse momento. Meu pai não teria se recusado a comprar seja lá o que fosse, mas lembro dele ter ficado puto e me puxado pra ir embora dali. Caralho, naquela idade e eu já tinha conhecido aquela que seria a maior decepção da minha vida, não fosse o Corinthians ter empatado o maldito jogo contra o Grêmio em 2007.
É nesse ponto que a minha memória clareia. Eu já estava de costas para o Neto quando ouvi ele dizer algo como “para com isso, traz ele aqui”. Soltei da mão do meu pai e fui até ele. O Neto pegou uma caneta azul e assinou na gola da minha camisa, do lado esquerdo. Na camisa listrada não sobram muitos espaços para uma assinatura.
Eu acho nem agradeci. Devia estar empolgado demais pra lembrar de ser educado. Mas o Neto não pode imaginar o quanto eu sou grato a ele por isso.
A camisa eu ainda tenho guardada, obviamente. A assinatura continua lá, mas, para não se perder com o tempo nem com as lavagens, na época a minha vó bordou sobre ela. Continua clara e forte, ao contrário do número 10 às costas, que já começa a desaparecer.
Nada além disso. Não tenho uma foto qualquer que prove o que eu estou contando. Como se vê, até mesmo a minha memória jogou fora boa parte do que aconteceu no dia em que me encontrei pela primeira vez com um ídolo. O que, de certa forma, pouca diferença faz. Não preciso de nada além de uma camisa velha, com um nome rabiscado na gola, pra lembrar o que me fez ser o que eu sou hoje: corintiano.

José Ferreira, o Neto











