Sexta-Feira, 03 Abril, 2009

INSUBSTITUÍVEL?

Quinze anos depois, lacuna deixada por Kurt Cobain ainda não tem substitutos à altura

Os versos escritos por Neil Young para a canção “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”, de 1979, fizeram ainda mais sentido em 8 de abril de 1994. Naquele dia, ao lado do corpo de Kurt Cobain, a polícia de Seattle, nos EUA, encontrou um bilhete que, entre outras coisas, dizia “it’s better to burn out than to fade away” (é melhor queimar de uma vez do que desaparecer aos poucos). Exames estipularam o dia 5 como provável data da morte do músico, causada por um tiro na boca dado pelo próprio Kurt. O maior ídolo do rock naquela época tinha se suicidado no auge da carreira.

Seattle é uma cidade fria e cinzenta do noroeste americano. No final da década de 80, bandas jovens que se apresentavam nos apertados clubes do local ganharam a proteção de uma pequena gravadora. A Sub Pop ficaria conhecida mais tarde como o berço do grunge, o último grande movimento do rock, responsável pelo nascimento de bandas como Mudhoney, Soundgarden, Pearl Jam e, principalmente, Nirvana.

“Bleach”, a estreia do grupo liderado por Kurt Cobain, foi lançado em 1988, mas a banda se tornaria protagonista da história da música de seu tempo apenas em 1991, quando “Nevermind” chegou às lojas embalado pelo riff simples, mas poderoso, de “Smells Like Teen Spirit”. “Eu fui pra lá no final de 1991, na semana de lançamento do ‘Nevermind’. Eu tinha marcado uma entrevista com eles do Brasil, antes de viajar, mas era algo simples, ninguém os conhecia. Mas, quando cheguei, o disco tinha explodido”, lembra o jornalista André Barcinski, autor do livro “Barulho – Uma Viagem Pelo Underground do Rock Americano”, que acompanhou a gênese do grunge in loco durante a produção de sua obra e, de quebra, viu o Nirvana tomar o trono de Michael Jackson, que até então ocupava a primeira posição entre os discos mais vendidos com “Dangerous”.

A partir daí, a popularidade da banda só cresceria, assim como os problemas pessoais de Kurt, acompanhados praticamente em tempo real por seus fãs pelas lentes das televisões e dos fotógrafos. “Ele fez de tudo para ficar famoso, mas não segurou a barra”, acredita Barcinski. O comportamento autodestrutivo do músico, que se entupia de heroína para “curar” uma dor de estômago crônica, e a polêmica relação com sua esposa, a vocalista do Hole Courtney Love, apontavam para o trágico final de sua história. “Havia uma expectativa de que ia acabar acontecendo. Ele dava demonstrações de que a coisa não ia terminar bem”, afirma o jornalista Marcelo Orozco, que escreveu “Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia”.

Um mês antes de se matar, Kurt tinha sofrido uma overdose em um hotel em Roma, na Itália, que quase o levou a morte. De volta aos EUA, foi internado em uma clínica de reabilitação na Califórnia, de onde fugiu pouco depois e voltou para Seattle. Lá, comprou uma espingarda, trancou-se em uma sala em cima da garagem de sua casa, escreveu uma carta e, depois de se drogar, atirou na própria cabeça, aos 27 anos.

MITO

“Conheci gente que conviveu de perto com ele. O Kurt ficou mais paranóico, com problemas com droga e mania de perseguição”, conta Barcinski, sobre o período entre a explosão de “Nevermind” e a morte do vocalista, há 15 anos. “O sucesso mexeu com a cabeça dele, negativamente”, completa. “Com certeza, a morte dele o amplificou e o mitificou, sacramentou sua importância”, acredita Orozco. “Não deu tempo do Nirvana entrar em decadência”, afirma o jornalista. “Eles ainda estavam no auge, com todo mundo de olho, pelo sucesso, pelo impacto, por terem revigorado o rock, até comercialmente”.

Barcinski acredita que o Nirvana carregava todos os ingredientes que transformaram Kurt em uma lenda do rock após sua morte. “Era uma banda bem acima da média, com um vocalista carismático, que durou apenas cinco anos. Morrer velho e milionário não faz de ninguém um mito”, diz ele.

LACUNA

As mudanças pelas quais a música passa nos últimos anos fizeram surgir uma lacuna após a morte de Kurt que até agora não foi preenchida. “O Nirvana foi o último triunfo de uma banda pré-Internet. Eles conseguiram a centralização das coisas”, afirma Orozco.

Com a Internet, a música se espalhou. Em vez de um grande ídolo, que assuma o foco dos negócios, surgem muitas pequenas estrelas, com brilho bem menor do que o necessário para ocupar o espaço em aberto. “E as pessoas que poderiam assumir, como o Thom Yorke (vocalista do Radiohead), são muito avessas a isso”, analisa Barcinski. Para Orozco, o lugar deixado por Kurt permanecerá sem substituto. “É bem difícil que isso volte a acontecer, com grandes nomes que dominam uma época”.

It's better to burn out tha to fade away

It's better to burn out than to fade away

Teorias de conspiração

Desde o momento em que a morte de Kurt Cobain foi anunciada, as teorias sobre um possível assassinato começaram a surgir. O caso foi encerrado como sendo suicídio, cometido provavelmente dia 5 de abril, com margem de erro de até 24 horas, de acordo com legistas. Mas as discussões não terminaram com as conclusões da polícia americana. A viúva de Kurt, Courtney Love, continua como a principal suspeita de quem acredita que o músico não se matou.

Uma das vozes que fala mais alto sobre esse suposto complô que arquitetou a morte do vocalista do Nirvana é o detetive particular Tom Grant. Em 3 de abril de 1994 ele foi contratado por Courtney para procurar o marido, que havia fugido de uma clínica para recuperação de drogados dois dias antes. Após o corpo de Kurt ser encontrado na sala sobre a garagem de sua casa, dia 8 daquele mês, Grant continuou suas investigações particulares, apesar de a polícia dar o caso como encerrado.

Em seu site (www.cobaincase.com), Grant acusa nominalmente a viúva de Kurt e o amigo dela, Michael Dewitt, de terem tramado a morte do líder do Nirvana. Na página, apresenta indícios que comprovariam sua tese. Segundo Grant, Kurt desejava se divorciar de Courtney em suas últimas semanas de vida. Outra prova seria um cartão de crédito de Kurt que estava sumido e foi utilizado depois de sua morte, mas não mais depois que o corpo foi encontrado. Além disso, exames mostraram que a quantidade de heroína encontrada no sangue do músico era três vezes maior do que o necessário para uma overdose, o que o incapacitaria de erguer uma arma pesada e atirar na própria cabeça.

Como nada é por acaso, Grant vende, em seu site, relatório de suas investigações por US$ 49. É possível, porém, encontrar os documentos, com as supostas evidências e fotografias, em arquivos gratuitos na Internet. Outro site que defende a tese do envolvimento de Courtney em um possível assassinato é o www.justiceforkurt.com, que conta com uma detalhada linha do tempo e arquivos da polícia de Seattle e encabeça uma campanha para pressionar as autoridades americanas a reabrirem o caso.

Estante

Livros

Kurt Cobain: Fragmentos de uma Autobiografia
autor: Marcelo Orozco
Editora: Conrad
O autor analisa e comenta as músicas do Nirvana e as letras de Cobain, ligando-as à cronologia da vida do vocalista.

Mais Pesado Que o Céu – Uma Biografia de Kurt Cobain
Autor: Charles R. Cross
Editora: Globo
Considerada por muitos a principal publicação focada na vida de Kurt Cobain, com base em cerca de 400 entrevistas, será adaptada para o cinema.

DVDs

Últimos Dias
Diretor: Gus Van Sant
Distribuidora: Warner Home Vídeo
O cultuado diretor conta os últimos dias de Kurt Cobain em forma de romance nesta ficção protagonizada por Michael Pitt.

Nirvana: Unplugged in New York
Distribuidora: Universal Music
Gravado cinco meses antes da morte de Cobain, o show produzido pela MTV é um emocionante réquiem do vocalista.

Sites

www.nirvanaclub.com
Reúne grande quantidade de material sobre a banda, como cifras, artigos, vídeos, fotos.

www.livenirvana.com
Site com arquivo de set lists, locais e datas das apresentações da banda, além de detalhes de sessões de gravação e aparições na TV e no rádio.

Publicado no Jornal TodoDia, em 03/04/2009

Quinta-feira, 02 Outubro, 2008

Sob a luz dos holofotes

John Mayer anda ganhando mais destaque na mídia ultimamente por seu fracassado romance com Jennifer Aniston, a Rachel de Friends e uma das queridinhas de Hollywood. Uma pena, pra ele. Não só porque ele perdeu uma das mulheres mais cobiçadas deste canto do universo, mas principalmente porque o John Mayer “Celebridade” acabou eclipsando o John Mayer “Músico”, justamente no momento em que chega às lojas o ótimo “Where The Light Is”, Cd e Dvd gravado ao vivo no Nokia Theatre, em Los Angeles, no final do ano passado.

O disco corre por uma linha pouco usual e que se mostra uma acertada escolha ao dividir a apresentação entre as três facetas do cantor que, a princípio, tem apenas um violão da mítica Martin & Co como companhia. A sessão acústica do show tem uma sequência de belas canções, entre elas “Daughters”, que termina no cover de “Free Fallin’”, de Tom Petty, com suporte dos guitarristas David Ryan Harris e Robbie Mcintosh. A versão escorrega ao deixar de lado o refrão a plenos pulmões que Tom Cruise imortalizou em uma das cenas de “Jerry Maguire”.

Mayer se despede do público e do clima intimista para voltar ao palco pouco depois junto com o baixista Pino Paladino e do baterista Steve Jordan para um set de seu John Mayer Trio. “Everyday I Have The Blues” deixa claro qual será a pegada da segunda parte do concerto, com notas precisas como da bela e longa “Out Of My Mind”, em que o cantor pede “Can I play my guitar?/ Can I play louder?” (Posso tocar minha guitarra?/ Posso tocar mais alto?).

O trio ainda se aventura por perigosas versões de canções de Jimi Hendrix. “Wait Until Tomorrow” esquenta o público sem decepcionar e “Bold As Love” é a deixa para um novo intervalo que, desta vez, termina com Mayer acompanhado de sua banda completa para a última das três partes da apresentação.
No mais longo dos sets, é a balada “Gravity” que chama a atenção, ao ser introduzida pelos primeiros versos de “I’ve Got Dreams To Remember”, de Ottis Redding.

“Where The Light Is” se mostra um bom disco, inclusive para quem pouco conhece da carreira de Mayer. Para os fãs, o dvd é um presente. As imagens captadas pelo diretor Danny Clinch, responsável também pelo gravação do acústico “Skin and Bones”, do Foo Fighters, mostram o músico extremamente confortável no palco, mas exalando nervosismo nos bastidores. Pequenos trechos de uma entrevista em que Mayer discorre sobre a carreira são colocados entre algumas músicas. Só não precisavam ser tão econômicos nos extras, que traz apenas uma apresentação com vários ângulos de “Who Did You Think I Was” e algumas imagens de Mayer tocando “Slow Dancing In A Burning Room” com a cidade de Los Angeles ao fundo.

Disco 1

download

1. Neon
2. Stop This Train
3. In Your Atmosphere
4. Daughters
5. Free Fallin´
6. Everyday I Have The Blues
7. Wait Until Tomorrow
8. Who Did You Think I Was
9. Come When I Call
10. Good Love Is On The Way
11. Out Of My Mind
12. Vultures
13. Bold As Love

Disco 2

download

1. Waiting On The World To Change
2. Slow Dancing In A Burning Room
3. Why Georgia
4. The Heart Of Life
5. I Don´t Need No Doctor
6. Gravity
7. I Don´t Trust Myself (With Loving You)
8. Belief
9. I´m Gonna Find Another You

Quarta-feira, 01 Outubro, 2008

Novas

O novo disco da série de Bootlegs de Bob Dylan pode ser ouvido inteirinho em streaming no NPR.org. Tell Tale Signs será lançado no dia 7 de outubro e reúne raridades e takes alternativos de canções das gravações do Oh Mercy (1989) ao Modern Times (2006). A demo de Dignity, só no piano, é maravilhosa.

Ouça aqui

Ouça aqui

O Oasis também resolveu liberar seu novo disco pra audição na internet, mais precisamente no MySpace da banda. Um pouco tarde, já que Dig Out Your Soul já tá na rede faz um tempo. Nas lojas, ele chega um dia antes do de Bob Dylan. Não é um Definately Maybe, mas é bom, muito bom…

Ouça aqui

Ouça aqui

Segunda-feira, 29 Setembro, 2008

Alta Fidelidade

‘Vinilmaníacos’

Na metade final dos anos 90, Rob Gordon é o frustrado proprietário de uma loja de discos, a “Championship Vinyl”, no subúrbio de Chigago. Ocupação que não constava em sua lista de cinco empregos dos sonhos. Após ser abandonado pela namorada, Rob passas algumas horas sozinho em seu apartamento reorganizando sua coleção de LPs. É quando Dick, um de seus funcionários e amigo, invade a sala e encontra Rob rodeado por milhares de discos.

“Parece que você está reorganizando seus discos. De que forma? Cronológica?”, pergunta Dick. “Não”, responde Rob. “Não é alfabética”, deduz o amigo. “Não. Autobiográfica”, revela Rob.

A cena faz parte do filme “Alta Fidelidade”, de 2000, uma adaptação do livro de mesmo nome do inglês Nick Hornby, um dos clássicos recentes da cultura pop. Entre listas de “Top Five” e a tentativa de reconquistar Laura, Rob (John Cusack) demonstra seu amor pela música e, em especial, pelos discos de vinil. A ponto de lincar os de sua coleção com passagens importantes de sua própria vida.

Apesar dos cerca de 10 anos que separam a época em que a história é contada e hoje, o amor pelas bolachas pretas resiste, mesmo que, nesse período, o CDs tenham tido tempo para se firmar e, logo depois, sucumbir aos arquivos digitais disponíveis na internet, que têm os contraditórios papéis de vilão para uns, e esperança para outros.

A ligação afetiva que Rob tem com seus discos é semelhante a do tatuador Mauro Gregório Júnior, 35, que ainda reserva um espaço em sua casa para acomodar sua coleção. “Ganhei meu primeiro vinil em 1982, aos nove anos. Tinha um tio que morava com a gente e ele ouvia muito Led Zeppelin, Black Sabbath, e eu comecei a gostar de rock. Um dia assisti a um show do Kiss na TV e meu pai decidiu me presentear com o “Creatures Of The Night”, que era o disco daquela turnê”, lembra Mauro. “Eu ouvia até gastar. Era muito novo pra ir em shows e me contentava com os vinis”, conta ele.

Com sua velha vitrola sem agulha, há algum tempo Mauro só consegue mesmo olhar para as capas de seus discos, a maioria de rock pesado dos anos 80. “Mas pelo menos uma vez por mês eu pego pra dar uma geral”, diz, sem esconder a preferência pelos LPs. “Os graves são mais definidos e tem aquela chiadeira clássica”, explica.

O radialista, jornalista, DJ, VJ e músico Antonio Carlos Senefonte carrega sua paixão pelos discos no próprio nome. Desde a década de 80 sob a alcunha de Kid Vinil, ele é considerado uns dos grandes especialistas brasileiros do gênero que tem Elvis Presley como Rei, tanto que acaba de lançar, pela Ediouro, o livro “Almanaque do Rock”. “Pertenço a uma geração que pensa no formato. Capa, arte, informação, letra. Tudo faz parte do conjunto. É como pegar uma obra de arte”, afirma o agora, também, escritor.

Entre os cerca de 20 mil discos que ocupam as prateleiras de sua casa, Kid tem dificuldade em escolher o preferido. “O Álbum Branco dos Beatles”, elege ele, depois de pensar um pouco. Mauro tem mais facilidade em apontar os melhores de sua coleção. À frente, o EP “Sjunger Sigge  Furst”, lançado em 1993 pelo Candlemass, uma obscura banda sueca de metal. “Só saíram duzentas cópias”, diz ele, mostrando a informação que consta na contra-capa do disco.

“Eu gosto e coleciono desde moleque. Tenho esses e ainda compro pela internet. Mas é pra colecionador. O jovem quer colocar a música no iPod e sair ouvindo”, afirma Kid.

Mauro ganhou o primeiro vinil aos nove anos; paixão continua até hoje

Mauro ganhou o primeiro vinil aos nove anos; paixão continua até hoje

Novos discos, velho formato

Decretado como um produto moribundo do final do século 20, o disco de vinil sobrevive graças a uma aura de cultuação formada a sua volta. Até mais do que isso. Na contramão do que acontece com o CD, os LPs experimentam um período de aumento nas vendas nos EUA. Só em 2007, as encomendas cresceram cerca de 37%, de acordo com matéria do jornal The New York Times do fim de agosto.

Apesar de ainda representar pouco na indústria da música, esses dados têm um perfil interessante. Não são os velhos álbuns sendo relançados no velho formato. São novidades de nomes respeitados, como Bob Dylan, que terá o disco “Tell Tale Signs”, em uma versão com quatro LPs, à venda a partir da próxima semana. A experiência já se mostrou recompensadora para bandas como Wilco, que vendeu 14 mil cópias em vinil de “Sky Blue Sky” no ano passado – o dobro do que já é considerado um sucesso para as bolachas.

Em um de seus blogs, o Listening Post, a revista americana Wired informou, em post de outubro de 2007, que o eBay, maior site de leilões virtuais do mundo, negocia cerca de um LP a cada dez segundos. Se esse ritmo for constante, são mais de três milhões de discos que trocam de mão a cada ano.

O radialista Kid Vinil é um dos que contribuem para esses números. Ele recebeu nos últimos dias os LPs de Bob Dylan que comprou pelo site. Em suas viagens, ele também não perde a chance de aumentar a coleção.
“Eu sempre compro, as feiras em Londres são muito boas”, afirma.

No Brasil a situação é bem diferente. Mas alguns artistas, como Lenine, não desistem do vinil. O pernambucano acabou de lançar seu novo álbum, “Labiata”, também em LP. Mas para isso precisou fabricár e importar um lote de mil cópias dos EUA, já que a última fábrica de discos de vinil do Brasil, a Polysom, fechou as portas no começo deste ano.

Algumas lojas, como a Livraria Cultura, vendem discos novos. Importados, eles acabam com preço ao consumidor muito fora da realidade brasileira. É comum que alguns ultrapassem os R$ 100. Dessa forma, não há muitas saídas pra quem quer descolar um vinil a não ser em sebos e lojas especializadas.
O comerciante Wilton Marchine Christiano, 46, é dono de uma das mais tradicionais lojas de discos de Americana. Criada há 25 anos, a Heavy Metal Rock começou com o vinil, “que era o que tinha na época”, conta Wilton. Algumas prateleiras ainda têm os discões à venda. “Tem uma procura legal, com uma moçadinha nova. Gente que nem tinha nascido quando o vinil acabou”, diz.

Wilton, que guarda 400 discos em casa, vê uma relação entre o fim do vinil e a crise no cenário musical mundial, em que bandas nascem e somem na mesma rapidez. “Essa molecada que baixa música e depois deleta, pra eles é tudo muito descartável. Quando comecei a gostar de rock, na década de 70, tinha que ir pra Campinas comprar disco. Essa dificuldade valoriza”, acredita Wilton.

Wilton guarda 400 discos em casa

Wilton guarda 400 discos em casa

Pelo tombamento da Polysom

Criada em 1999, quando os discos de vinil já tinham atestado de óbito, a Polysom resistiu bravamente até o início deste ano. Foi quando a última fábrica de LPs do País fechou as portas na cidade de Belford Roxo (RJ). Com capacidade para prensar até cinco mil discos por dia, a fábrica chegou a fazer 110 mil cópias de um único álbum em 1999. Pouco antes de falir, esse número caiu para cerca de 23 mil por ano.

No ano passado, o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil apoiou um projeto para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprove o tombamento da Polysom. Para o representante da Secretaria de Políticas Culturais do MinC (Ministério da Cultura), Alvaro Malaguti, o processo é complicado. “Trata-se de uma operação muito difícil, pois a empresa possui dívidas com a Receita Federal, governo estadual e fornecedores privados. Além disso, o MinC nunca tinha trabalhado com a recuperação de uma fábrica”, afirma ele.

“No momento o Ministério está empenhado em realizar e custear a elaboração de um estudo detalhado sobre a situação da fábrica que contemple aspectos do presente, como valor dos equipamentos que a empresa ainda possui mas também do futuro, como qual é a demanda mínima de prensagem que a fábrica tem que ter para se manter funcionando sem prejuízo”, completa ele.

Publicado no Jornal TodoDia, em 28/09/2008

Sexta-Feira, 11 Julho, 2008

‘Hoje não é um dia de pragas’

Com unhas imensas, cartola e capa negras, José Mojica Marins comparece à estréia de seu novo filme, em Paulínia, e é aplaudido pelo público

Se eram aplausos o que o cineasta José Mojica Marins precisava para se sentir realizado com seu novo projeto, é provável que ele tenha deixado o Theatro Municipal de Paulínia em êxtase, quarta-feira. Sua aparição no I Festival Paulínia de Cinema, para a apresentação de seu novo longa, “Encarnação do Demônio”, foi o principal momento do evento até agora. Com a platéia completamente lotada, Mojica foi ovacionado ao entrar no local caracterizado como o personagem Zé do Caixão, protagonista do filme, com direito a unhas imensas, cartola e capa negras.

“Hoje não é dia de pragas”, disse ele, no palco. “Foram 42 anos que eu procurei resumir em uma página e meia”, continuou Mojica, tirando um papel do bolso de sua camisa e se referindo ao longo tempo entre a construção do roteiro, de 1966, e a conclusão do filme, que teve sua primeira apresentação pública quarta-feira. E ele não só leu, mas interpretou cada palavra escrita na folha amassada.

Em seu discurso, contou toda a história da produção de um filme que ele nunca conseguia levar adiante, fazendo o público gargalhar ao relatar como cada um dos produtores que fariam o longa morreram após demonstrar interesse pela empreitada, como em uma maldição. Tanto que, ao receber o convite do produtor e montador Paulo Sacramento, em 2000, ficou feliz ao saber que ele era casado e tinha filhos. “É muita gente para morrer”, contou, aliviado.

Depois de insistir nas possíveis conseqüências que “Encarnação” teria em mulheres grávidas e nas crianças, Mojica, ou melhor, Zé do Caixão, vociferou: “Esse filme terá continuação no seu pesadelo”. Foi a deixa para o início da projeção da terceira parte da saga do personagem, iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e que continuou três anos depois, com “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.

Mas nem mesmo os recursos em abundância – muitas vezes maiores do que o mais gordo orçamento com que já contou -, fizeram Mojica abandonar seu velho estilo. Quase nada de computação gráfica, e muita aranha, barata e um grande porco desossado que serviu de casulo para uma das personagens em uma seqüência empolgante.

No filme, Zé do Caixão deixa a prisão depois de 40 anos e retoma sua busca pela mulher que deverá gerar seu filho perfeito. Ainda mais violento do que quando aterrorizou pequenas cidades na década de 60, o coveiro protagoniza cenas fantásticas e de visual caprichado, como uma em que faz amor com uma de suas escolhidas durante uma tempestade de sangue ou na que cumpre a promessa de que sua vítima não veria o horror pelo qual passaria tapando seus olhos com o próprio couro cabeludo. Essa última fez o público reagir com calorosos aplausos.

Desnecessário dizer que “Encarnação do Demônio” não é digerido por todos os estômagos. Mas coroa a carreira de um cineasta que precisou vender casa e móveis para rodar seu primeiro clássico, que sofreu com a censura em “Esta Noite” e que conta com a simpatia e de um público que pouco – ou nenhum – contato teve com sua obra. “Esse filme era coisa que o cinema estava devendo para esse homem, e nós conseguimos”, disse Sacramento. O público de Paulínia parece ter concordado.

Zé do Caixão - Encarnação do Demônio

Encarnação do Demônio

Publicado no Jornal TodoDia, em 11/07/2008

Quarta-feira, 09 Julho, 2008

Terror à solta

Ou a volta do Maldito

“Encarnação do Demônio” é o principal destaque de hoje no I Festival Paulínia de Cinema e traz de volta o sanguinário Zé do Caixão

Foram 40 anos de espera, vários roteiros reescritos e um personagem insubstituível. Mas Zé do Caixão rogará suas pragas por Paulínia, hoje à noite, na estréia do terceiro filme de sua saga, “Encarnação do Demônio”, principal destaque da programação de hoje do I Festival Paulínia de Cinema. Mas isso ainda não é o suficiente para que o cineasta José Mojica Marins, que também dá vida ao coveiro assassino, se sinta realizado. “Isso pode se concretizar em Paulínia, se eu sentir que o público gostou”, disse ele em entrevista exclusiva ao TodoDia , na tarde de ontem (leia mais sobre Mojica na página 5).

O filme, um dos mais esperados do festival, faz parte da mostra competitiva de longa-metragem de ficção e terá sua primeira apresentação pública na noite de hoje. E Mojica se mostra ansioso com a estréia. “Vai ser difícil dormir”, afirmou. “Minha religião é o cinema, mas minha satisfação é o público”, disse, surpreso ao saber que a expectativa é de que o Theatro Municipal de Paulínia esteja totalmente ocupado para a exibição do longa, às 20h.

Mas não é para menos. “Encarnação do Demônio” tem o maior orçamento entre os filmes dirigidos por Mojica – cerca de R$ 5 milhões. “Isso para mim é gigantesco. Até então, o maior era de R$ 120 mil”, conta o cineasta, que teve a colaboração de 70 técnicos durante as filmagens, número bem acima dos 12 a que ele estava acostumado. Isso, porém, não foi suficiente para que Mojica abandonasse seus velhos métodos na hora das filmagens. “Só usei computador para fazer o céu vermelho. Tudo é artesanal”, contou, citando a cena em que 3 mil baratas – “reais, de laboratório” – tomam de assalto o corpo de uma das personagens.

Nesta nova seqüência, Zé do Caixão continua sua busca pela mulher que será a mãe de seu filho perfeito. Para isso, ele espalhará terror pela cidade de São Paulo, abandonando cenários rurais e bucólicos de seus dois primeiros filmes – “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver” (1967). Depois de 40 anos preso, ele volta ainda mais sanguinário. “Está está mais envelhecido, mas também mais inteligente e violento, porque enfrentamos uma época violenta”, afirmou Mojica.

No elenco, veteranos como o ator Jece Valadão, que faleceu em 2006, pouco após as gravações, dividem a tela com novos nomes como o de Milhem Cortaz. “‘Encarnação’ é a minha obra-prima”, garante o cineasta. O longa tem data de estréia no circuito comercial marcada para 8 de agosto.

Personagem por acaso

Por sugestão de um maquiadores, Mojica encarnou Zé do Caixão e tornou-se uma das figuras mais conhecidas do cinema nacional

A espera por “Encarnação do Demônio”, roteirizado em 1966 e com exibição marcada para hoje no I Festiva Paulínia de Cinema, explica-se pela história do personagem. Zé do Caixão apareceu pela primeira vez em 1964, no clássico do terror “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. Mas a produção foi cheia de problemas, começando pelo lado financeiro. “Vendi a casa e os móveis”, lembra José Mojica Marins, que rodou o filme em apenas 13 dias, que era o tempo que podia pagar.

Ele também não tinha um ator para interpretar o personagem principal. Sua primeira opção foi Milton Ribeiro, que viveu Galdino em “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Mas ele recusou o papel por não querer associar sua imagem a um filme de baixo orçamento. Foi aí que um dos maquiadores sugeriu que o próprio Mojica interpretasse Zé do Caixão. “Eu topei e mandei comprar uma camisa preta”, lembrou.

Isso tudo porque, durante um jantar, Mojica adormeceu e teve um pesadelo em que se via sendo levado para uma gruta por um vulto preto e, lá, encontrou uma lápide com seu nome. “Debruçado na mesa, meu corpo mexia”, disse. Quando acordou, correu para escrever o resumo daquele que seria seu próximo filme, o primeiro com um dos personagens mais famosos do cinema nacional.

Apesar das dificuldades, o filme foi bem aceito pelo público e rendeu uma continuação. “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” chegou aos cinemas três anos depois, mas sofreu com a censura. A cena final, em que Zé do Caixão rejeita Deus, teve que ser refeita. “Até o diálogo eles me mandaram”, afirmou. “E aqueles 30 segundos finais ficaram sem razão de ser”, lamentou o cineasta, sobre a parte em que o coveiro pede a cruz a um padre para se redimir de seus crimes. A cena, como estava escrita no roteiro, entra agora no novo filme. Um dublê americano foi contratado para recriá-la. “Ele é parecidíssimo comigo aos 30 anos”, garantiu ele.

Mojica também lamenta que o público hoje tenha pouco acesso à sua obra. “Agora, com ‘Encarnação’, todo mundo vai querer ver os outros dois”, acredita ele, que aceita ser chamado de “um dos cineastas mais cultuados do País”. “Os jovens falam isso. Eu realmente estou de bem com todo mundo”, afirmou. “O trash virou cult”, disse.

Publicado no Jornal TodoDia, em 09/07/2008

Sexta-Feira, 16 Maio, 2008

Tô famoso

Cada vez mais a internet transforma anônimos em celebridades-relâmpago e ajuda a alavancar carreiras despretensiosas

Caruaru é uma cidade mediana do agreste pernambucano, com pouco mais de 250 mil habitantes. Segundo o Google Maps, uma viagem de Campinas até a cidade leva cerca de um dia e seis horas – em uma previsão extremamente otimista -, através de aproximadamente 2.484 quilômetros de estradas que cortam cinco Estados brasileiros. Caruaru é muito conhecida pelo forró e por seus artesanatos, além de ser a terra de Givanildo Silveira, Jeremias José e Ivanildo Holanda dos Santos, o famoso Caninha, o filho de Guéga.

Mallu Magalhães é só uma garotinha ainda. Mas já carrega nos ombros certa pressão depois que ganhou as páginas dos suplementos culturais dos maiores jornais do País e ao fazer shows lotados mesmo sem nunca ter lançado um disco sequer. Ao contrário de Mallu, Alexandre Inagaki já passou dos 30. Seus textos são mais lidos do que a maioria dos jornais brasileiros, apesar dele pouco escrever em periódicos que sujam as mãos de tinta.

Você, leitor, já deve ter ouvido falar desses personagens. A não ser que tenha se mantido recluso em algum canto do País em que não exista conexão com a internet nos últimos anos. Todos eles são hits da rede, alguns até de forma involuntária. Ainda assim, conseguiram, com a ajuda da web, deslanchar em suas carreiras – ou, ao menos, alcançaram alguns minutos de fama.

“A gente não esperava isso não”, conta Givanildo Silveira, repórter policial do programa Sem Meias Palavras, da TV Jornal de Caruaru, uma das retransmissoras do SBT em Pernambuco. “Um menino que trabalhava com a gente teve a idéia de montar o site e colocar os vídeos das reportagens. Até que um deles apareceu no Kibe Loco. Aí, meu amigo…”, conta ele. O vídeo a que Givanildo se refere é a matéria em que ele mostra Jeremias José, um morador da cidade que foi preso completamente embriagado enquanto dirigia sua moto. Na delegacia, Jeremias contou que veio do inferno e que “foi o cão quem butô (sic) pra nóis (sic) beber”. Depois ainda disse que “se pudesse, matava mil” e cantou um clássico do cantor brega Ovelha.

Pronto. Foi o que bastou para que as ocorrências policiais do bairro do Salgado e do Sítio Murici, em Caruaru, se tornassem conversas obrigatórias em qualquer rodinha de amigos. “A primeira foi a do Jeremias. Depois vieram as do Caninha e do Leonaldo. Eu vejo sempre o Jeremias por aí, e ele não largou da bebida não. O Caninha fiquei sabendo que parou”, conta ele. “Rapaz, uma vez, na praia, em Alagoas, um pessoal de São Paulo me reconheceu. ‘Olha lá o repórter do Jeremias’, eles falavam”, lembra.

Givanildo Silveira, o repórter policial “engraçadinho” de Caruaru, bomba no YouTube com reportagens como a que fez com o ébrio Jeremias José

Não é difícil saber o porquê da fama. As reportagens de Givanildo, carregadas de humor, já foram vistas por milhões de pessoas. No YouTube, a procura por “Sem Meias Palavras” resulta em 753 vídeos, muitos deles vistos mais de um milhão de vezes. “Eu procuro meu nome no Google e tem um monte de coisa”, diz. Além da fama repentina, a vida de Givanildo não sofreu muitas mudanças. Ele continua trabalhando no mesmo lugar, fazendo as mesmas reportagens. “Algumas ainda mais engraçadas”, garante ele, que promete para breve um novo site para que as matérias inéditas possam ganhar a internet também.

Já a vida da pequena Maria Luiza Arruda Botelho Pereira Magalhães deu “aquela desregulada” nos últimos meses, como ela diz. Em seu último aniversário, de 15 anos, decidiu trocar a festa de debutante por algumas horas em um estúdio de São Paulo para gravar suas composições. “Ah, um amigo meu falou: ‘porque você não põe no MySpace?’. Aí eu pensei: ‘É!’, pra ver no que dava”. E deu. Mallu foi descoberta, estampou jornais e revistas do País inteiro, foi entrevistada por Jô Soares e fez shows em que centenas de pessoas tiveram que ficar pra fora por falta de espaço.

E seu primeiro disco, independente, só deve sair em setembro. “Ando meio sem tempo desde que tudo isso começou, mas sempre há um jeito de arranjar uma deixa pra tocar, pintar e fazer a lição de casa”. Ah, é. Mallu ainda precisa estudar, como garotas de sua idade fazem. “As coisas mudam e se você tiver um grande sonho, tem de mudar também, mas nunca deixar de ser você”, filosofa a garota, que canta e compõe em inglês as canções que já receberam mais de 760 mil plays no MySpace (www.myspace.com/mallumagalhaes), como “Tchubaruba” e “J1”.

O diretor de marketing do MySpace Brasil, Haryston Oliveira, revela qual foi o segredo que fez com que Mallu se tornasse esse fenômeno da internet. “Assim como ela fez, é preciso manter a rede ativa, com muitas atualizações. Tem que ter um bom trabalho e fazer a rede funcionar”, explica ele. São cerca de 75 mil perfis de bandas nacionais no MySpace, que já se tornou obrigatório para quem quer viver da música. “Os três perfis brasileiros mais acessados são o do Nx Zero, da Marisa Monte e do Marcelo D2, o que mostra que atingimos todos os públicos”, afirma.

Alexandre Inagaki pintou na internet quando ela ainda “engatinhava” no Brasil. Começou a publicar seus textos em 1999. Mas foi em 2002 que ele criou o seu filho mais adorado. Hoje, o blog de Inagaki, o “Pensar Enlouquece… Pense Nisso”, tem uma média de 200 mil acessos por mês e 3.800 assinantes de RSS. Na quarta-feira, o Technorati, espécie de Google dos blogs, registrava exatas 3.458 citações ao “Pensar Enlouquece”.

“Foi uma ferramenta que facilitou a publicação dos meus textos”, diz Inagaki, que lucra com a empreitada. “O blog representa até 15% das minhas receitas mensais. E, por causa dele, já recebi convites para colaborar com várias revistas e jornais”, conta.

“Um blog é legal quando é escrito sem maiores preocupações. Tem que escrever sobre o que gosta”, aconselha. “O conteúdo acaba sendo valorizado naturalmente”, completa ele, que credita seu sucesso ao famoso boca-a-boca, ou, como ele prefere, o “mouse-a-mouse”.

mallu magalhaes

Mallu Magalhães colocou suas composições no MySpace, foi entrevistada pelo Jô e está com a agenda lotada de shows

Publicado no Jornal TodoDia, em 16/05/2008

Sábado, 26 Abril, 2008

Better Than Seattle (Parte Final)

Better man

A lá Ramones, Eddie Vedder entra no palco pulando as caixas de som, agarra o microfone e de cara solta um “one, two, three, four”, as palavras mágicas para que a banda toque “Breakerfall”, uma porrada de três minutos que espanta de vez o frio. Só depois da quarta música, Eddie troca suas primeiras palavras com a audiência. “Então isso é um sábado à noite em São Paulo?”, pergunta ele, que como resposta recebe um grande urro do estádio. “Agora nos perguntamos por que não viemos antes”, confessa ele. “Que porra estávamos pensando?”, indaga em um português cheio de sotaque, antes de emendar “Given To Fly”, em que ele improvisou o verso “he made it to São Paulo, had a smoke in a tree” e levou todos ao delírio.

Neste segundo show, a banda parece estar em um clima diferente. Eddie, aparentemente embriagado pelo vinho, que mais uma vez está em suas mãos, mostra se divertir e faz muitas brincadeiras com o público. Como se eles tivessem tirado um peso dos ombros por terem feito um show extraordinário no dia anterior. “Já tocamos tudo o que sabemos ontem. Vamos nos divertir hoje”, eles devem estar pensando. Isso, geralmente, costuma dar muito certo.

Com uma única luz acessa do lado esquerdo do palco, Mike McCready toca duas notas na sua guitarra. Se nossas apostas tivessem sido reais, eu teria levado uma grana ainda naquela noite. “Present Tense”, uma música meio obscura na discografia da banda, que nunca é tocada, mas que tenho como uma das minhas preferidas.

Uma das tradições dos shows da banda é que sempre que eles tocam “Daughter”, no meio da música é incluída uma tag, geralmente um refrão de alguma música que Eddie pensa na hora mesmo, para interagir com a platéia. Mas hoje, pela primeira vez, antes mesmo do vocalista pensar em alguma música, o público já havia se decidido por “It’s Ok”, um cover da banda “Dead Moon”. Eddie não tem escolha a não ser seguir a multidão. O frontman pede para que a metade esquerda do estádio cante sem parar “It’s ok, it’s ok”, enquanto a metade direita canta “ô ô ô, ôôôô…”. E, como no dia anterior, o Pacaembú relembra seu espírito esportivo. Ao final da música, Eddie se curva diante do público, e agradece.

O aparente estado de embriaguez do vocalista do Pearl Jam se confirma quando Eddie gargalha ao errar o começo de “Small Town”. Depois de um breve intervalo, o vocalista volta só com um violão para uma belíssima versão de “You’ve Got To Hide Your Love Away”, dos Beatles. Depois desse momento de calmaria, Mark Arm e Steve Turner, do Mudhohey, sobem ao palco para uma jam grunge diante de 40 mil espectadores. Os sete músicos tocam “Kick Out The Jams” do MC5, banda da cidade de Detroit que ajudou a difundir a raiva do punk pelos Estados Unidos.

Depois de outro intervalo, o Pearl Jam volta ao palco para as últimas músicas do último show em São Paulo. “Whipping”, “Crazy Mary” e “Alive” encaminham a apresentação para o seu final. “Rockin In The Free World”, cover do canadense Neil Young, fecha o concerto, com Eddie bradando para que as pessoas “continuem fazendo o rock para um mundo livre”. A banda dá seu adeus à cidade de São Paulo, prometendo voltar o mais rápido possível. Eddie acena com a mão, até se perder no fundo escuro do palco.

Ainda sem palavras pelos acontecimentos dos últimos dois dias, puxo o Melão pela camisa para subirmos as escadas, em direção à saída. Saímos pelo mesmo portão pelo qual entramos. Meu ouvido agora tem o dobro de zumbido. Minha voz já não existe desde a segunda música. Compro uma água, já do lado de fora do estádio. Eu e o Melão não trocamos muitas palavras no caminho de volta. E não só pela rouquidão. Em êxtase, não tínhamos palavras para expressar tudo aquilo. Subimos a ladeira do Cemitério do Araçá, já próximos da estação do metrô. Tínhamos acabado de sair de mais um show do Pearl Jam. Foram quinze anos de espera para duas noites inesquecíveis.

Pearl Jam Live in São Paulo

<<Parte 4

Quinta-feira, 24 Abril, 2008

Better Than Seattle (Parte 4)

Drinking for two

O sábado amanheceu frio, apesar de estarmos no começo de dezembro. Já é quase hora do almoço. Meu ouvido ainda está zumbindo, e meu corpo doe mais do que ontem. Mas nada disso importa. Hoje tem outra vez.

A macarronada feita pela minha avó estava fantástica. Deu pra forrar bem o estômago. Sem carona, precisamos sair um pouco mais cedo. Até a estação São Judas do metrô, a mais próxima da casa de minha avó, são cerca de 30 minutos de caminhada. Por todo o caminho, eu e o Melão vamos conversando sobre o show da noite passada e tentando adivinhar quais músicas eles tocarão logo mais a noite. Eu aposto em “Present Tense”, o Melão em “Oceans”.

A viagem sob a terra é rápida e em 20 minutos descemos na estação Clínicas, perto do Pacaembú. Descemos a ladeira do Cemitério do Araçá e já estamos no portão 08 do estádio. Hoje, assistiremos ao show das cadeiras à direita do palco. Pouco mais longe, mas muito mais tranqüilo que a pista. Tomamos nosso lugar na fila e, novamente, dezenas de vendedores passam com todo tipo de produto falsificado da banda. Um deles tem alguns adesivos muito bem feitos, com o símbolo da turnê: um filhote de pássaro com o bico aberto, como se esperando por comida. Compramos dois por R$ 3.

O vento que sopra na região do Pacaembú derruba a temperatura, mas não nos impede de finalmente tomar uma cerveja e brindar o fim da longa espera. O portão é aberto por volta das 17h30, exatamente como ontem. Corremos e conseguimos um ótimo lugar para assistir a apresentação de hoje. Desistimos das cadeiras e nos penduramos na grade de uma das escadas que leva à pista. É o mais perto possível que podemos ficar do palco, e com a vantagem que à nossa frente não teremos ninguém. Logo, outras pessoas juntam-se a nós na grade, que, apesar de tudo, não é nem um pouco confortável.

Comentários sobre o show da sexta-feira predominam nas rodas de conversas. Uma das garotas ao nosso lado, uma morena com traços orientais, conta que está seguindo todos os passos da banda pelo Brasil. Assistiu aos concertos em Porto Alegre e Curitiba. Esteve na pista ontem, e amanhã bem cedo corre para o Rio de Janeiro, para assistir a última apresentação do Pearl Jam no Brasil – show que também esteve em meus planos, por ter um primo que mora na cidade maravilhosa. Fui obrigado a desistir graças ao meu baixo orçamento.

Ali nas cadeiras o público tem um perfil diferente do que eu observei na pista, ontem. Muitos pais acompanham seus filhos, nem sempre tão novos. Em alguns casos, percebo que são os filhos que acompanham os pais. Muitos casais dividem espaço com as onipresentes camisas de flanela.

A garoa volta a marcar presença, diminuindo ainda mais a sensação térmica, que só subiu quando eu dei meus primeiros pulos com a guitarra de Steve Turner, do Mudhoney, que tocava – novamente – para abrir o último show do Pearl Jam em São Paulo. Poucas palavras trocadas com o público, e 40 minutos de rock ininterruptos. As cadeiras numeradas do Pacaembú, onde estou hoje, ficam cerca de 2 metros acima do gramado, onde fica a pista. É incrível a quantidade de pessoas que se espremem ali em baixo. O movimento daquela multidão é inacreditável. A expressão “mar de gente”, apesar de clichê, se encaixa perfeitamente para aquela cena, com as pessoas pulando de um lado para o outro seguindo o som da bateria e das guitarras do Mudhoney. Então Mark Arm, o vocalista, se despede com um “até logo”.

Contagem regressiva para o começo do fim. Se a pontualidade que marcou os shows nesses dois dias for mantida, faltam apenas 15 minutos. O Pearl Jam normalmente muda muito seu setlist entre os shows, e todos nós aqui sabemos disso. Ali na roda de estranhos que acabamos de conhecer, começam novas apostas para tentar adivinhar quais músicas seriam tocadas hoje. Mantenho o meu chute em “Present Tense”, não sei por quê.

Pearl Jam Live In São Paulo

<<Parte 3

Parte Final>>

Quarta-feira, 23 Abril, 2008

Better Than Seattle (Parte 3)

Given to fly

O show de abertura está marcado para as 18h30. Mudhoney, a banda precursora do grunge, o último grande movimento do rock. Geograficamente baseado na cidade de Seattle, no noroeste dos Estados Unidos, o grunge não foi só um punhado de bandas fazendo um som parecido no começo dos anos 90. Uma mistura do punk com heavy metal, sem a preocupação estética que a música dos anos 80 tinha, com seus vocalistas de cabelos armados, coletinhos de lantejoula e calças agarradas. O grunge era sujo, desgrenhado, como o cabelo dos garotos que assistiam aos shows em bares escuros de Seattle. Era um som de garagem. Dava até pra ver a graxa nas unhas dos guitarristas. O Mudhoney, com o Melvins e do Mother Love Bone, podem ser considerados os pais da criança. Em 1991, com o lançamento da obra-prima “Nevermind”, do Nirvana, e suas 25 milhões de cópias vendidas pelo planeta, o grunge saiu dos bares imundos da cidade americana direto para os grandes estádios do mundo.

Além da banda de Kurt Cobain, Alice in Chais, Soundgarden e Pearl Jam ajudaram a tirar as camisas de flanela do guarda-roupa de muita gente. E hoje eu poderei ouvir criador e criatura. Mudhoney e Pearl Jam. A menos de 15 metros de distância.

Pontualmente às 18h30 Mark Arm, lendário vocalista do Mudhoney, pisa no palco. O sorriso em seu rosto denuncia a alegria por tocar em frente a 40 mil pessoas. Um “Boa noite, São Paulo” e só. Duas músicas são o suficiente pra deixar claro que meu preparo físico é medíocre. Minhas pernas já doem, e, se eu pudesse ouvir minha própria voz, diria que já estou rouco. As bordoadas na bateria abrem “In’n’Out Of Grace”. Nesse momento, à minha esquerda, uma garota sobe nos ombros de um rapaz. Embalada pela gritaria, ela começa a me mostrar do que é feito um show de rock de verdade. A camiseta branca que ela vestia agora é girada sobre sua cabeça. Dois ou três giros depois, é a vez de o seu sutiã “cair” e levar a platéia ao delírio. Não, ela não era bonita. Talvez ela não chegasse nem próxima disso. As dezenas de mãos que tentam tocar seus seios quase a derrubam. Ela desce dos ombros do amigo/namorado ovacionada pelo público. Rock and roll, man.

Com o show rolando, perdi a noção de espaço. Era impossível lutar contra a multidão. Desisti. Eu me deixo ser levado, para todos os lados ao mesmo tempo. Foram 45 minutos de guitarras estourando os meus tímpanos. Mark Arm se despede com um até amanhã. Respondo com um “até” que eu sei que ele não ouviu.

De novo em cima do horário marcado, eles vão entrando, um a um, no palco. Eddie Vedder, o vocalista, com seu caderninho e uma garrafa de vinho sem rótulo. Mike McCready, o guitarrista, desfila com seus cabelos vermelhos à la pica-pau. Stone Gossard segura sua guitarra no alto, e Jeff Ament empunha seu tradicional baixo amarelo-ovo. No fundo, Matt Cameron discretamente toma seu lugar atrás da bateria. Sem nem mesmo um “olá”, o Pearl Jam emendas as enérgicas “Go” e “Hail Hail”. Eu não podia acreditar naquilo. A espera de 15 anos, a polêmica sobre o local do show, as horas deitado em uma maca no corredor de um hospital por causa de dois ingressos finalmente faziam sentido para mim. Ali, no meio de 40 mil pessoas, eu percebi que tudo aquilo valia a pena. Abracei o Melão, ainda na minha vista, e gritei “caralho” tão alto que descobri que minha voz realmente já tinha partido.

Estava difícil manter meu lugar. Muitas pessoas passavam por cima da minha cabeça, a maioria mulheres, que não agüentaram o tranco de ficar tão próximas ao palco.

Eddie, logo depois da terceira música, solta suas primeiras palavras ao público. “Oi São Paulo, esperamos anos para vê-los”, diz ele em um português ensaiado. “Temos nuvens e chuva, como em Seattle”, completa Eddie, levando o público ao delírio com a comparação com o templo sagrado do grunge.

Depois de muito lutar, não agüento, e passo a ver o show alguns metros mais longe. Já me perdi de todos os meus amigos. Mas esse é o tipo de coisa pra pensar só depois que o sonho acabar.

O Pacaembú parece influenciar as pessoas, que começam a cantar, entre uma música e outra, como se estivessem em um jogo de futebol, “Olê, olê, olê, olê…Pearl Jam, Pearl Jam”. A banda faz um show simples e direto. Sem teatros ou pirotecnias. A luz do sol que brilhava entre as nuvens no começo do show já tinham dado espaço para a noite, de céu muito escuro e de nenhuma estrela, quando as primeiras notas de “Untitled” são tocadas. Milhares de isqueiros são acesos, acima das cabeças, trazendo as estrelas que faltavam no céu para dentro do estádio. Eu olho para todos os lados, pra me certificar de que nunca mais esqueceria aquelas imagens. No meio da música, Eddie improvisa: “let’s get out of north america. Let’s get down to south america”. O público delira.

Mais gestos do que palavras são trocados entre público e banda. A todo o momento é possível ver os músicos sorrindo em cima do palco. De repente, todas as luzes são apagadas. Do meio da pista, em uma estrutura alta de ferro, um canhão de luz mira o microfone sozinho, no meio do palco. Caminhando em direção àquela única luz, Eddie Vedder aparece com sua guitarra azul, com o símbolo do The Who colado. Fã assumido da banda inglesa e amigo pessoal de Pete Townsend, guitarrista do The Who. No instrumento de Eddie, o tradicional símbolo dos dois círculos vermelhos, um dentro do outro, com uma seta apontando para cima, treme com uma única nota. Sozinho, de frente para o público, o vocalista entoa só uma palavra: “Waiting…”. É a deixa para que todos os presentes no estádio emendem a canção “Better Man”. Toda a primeira parte da música é cantada pela platéia. Nos dois telões, Eddie focalizado parece admirado com as 40 mil vozes que gritam os versos em inglês. Eu, perdido ali no meio, tento cantar o mais alto possível.

No fundo escuro do palco, é possível enxergar a silhueta dos outros membros do Pearl Jam. A troca de papéis fica clara. Os que deveriam aplaudir, cantam. Os que deveriam cantar, aplaudem. É impossível não perceber a emoção, e imaginar o que deve se passar na cabeça de alguém que vê 40 mil pessoas de um país que não fala sua língua cantar sua música em uníssono.

Quinze canções depois, a primeira pausa. Eddie pergunta, em inglês, se nós nos sentimos tão bem quanto eles. Ele se antecipa, e responde a própria questão. “Aparentemente não, porque nós nos sentimos muito bem”.

Na introdução da próxima música, em um diálogo novamente em português decorado, Eddie revela que a próxima canção é em homenagem a um grande amigo, falecido um ano antes. O público sabe que ele fala de Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones, que morreu vítima de câncer em 2004. A banda de Johnny é uma das mais adoradas no Brasil. Sentado em um banquinho, Eddie ouve um coro de “Hey Ho, Let’s Go”, o famoso refrão de “Blitzkreig Bop”, dos Ramones, gritado pelo Pacaembú. Ele olha para o céu, e, como se conversasse com o amigo, pergunta: “can you hear it, Johnny?”.

Os primeiros acordes de “Man Of The Hour” são tocados e algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto. Eu simplesmente não consigo me controlar. A homenagem ao amigo continua na música seguinte: “I Believe In Miracles”, cover da banda de Nova York, que precede “Last Kiss”, o principal hit do Pearl Jam. A letra triste sobre um casal de namorados separados pela morte da garota em um trágico acidente de carro tem o acompanhamento de todo o público, que bate palminhas, em um “clap-clap” que pode ser ouvido por metade de São Paulo.

O show já estava próximo de acabar, e eu começava a ficar preocupado. Com exceção de Porto Alegre, eles tinham tocado “Black” em todos os outros concertos da turnê. E o pior de tudo é que, perdido de meus amigos, eu não tinha quem xingar se eles não tocassem essa música.

Até que, na escuridão do palco, consigo enxergar Stone Gossard com uma guitarra acústica. Ele confere a afinação do instrumento. Eu havia prometido à minha namorada que ligaria para que ela também pudesse ouvir a música. Procuro pelo meu celular no bolso e ligo. Dois toques depois, ela atende. Com a voz embargada novamente pelo choro, só consigo dizer, antes mesmo do alô, “Ana, ouve isso, pelo amor de Deus”. A música se estende por mais de oito minutos. Eddie começa a agradecer. “Obrigado por nos esperarem por tanto tempo. Obrigado por nos ouvirem, e por cantarem conosco”. Ainda com ela na linha, Eddie diz, agora em inglês, a frase que deve ter ficado na cabeça de cada uma das pessoas que estavam se espremendo dentro daquele estádio. “This is better than Seattle”, completou o vocalista, antes dos primeiros acordes de “Jeremy”. Seu olhar de surpresa denunciava que aquilo não tinha sido dito só pra agradar o público.

No final do concerto, em “Yellow Ledbetter”, Eddie continua agradecendo a São Paulo pelo show. As luzes do palco se apagam, a banda sai de cena. Fico no meu lugar, me recuperando e tentando acreditar que tudo aquilo realmente havia acontecido. De repente, alguém me abraça. Era o Melão, eufórico e sem voz, como eu. Entre as muitas palavras que ele tentou me dizer, consigo identificar apenas algumas. “Puta qua pariu, você viu isso? E sabe o que é o melhor de tudo?”, questiona, respondendo logo em seguida. “Amanhã tem tudo isso outra vez!”. Eu concordo, balançando com a cabeça.

Saímos do estádio pelo portão principal, e encontramos o Leonardo, que nos daria carona de volta. Dentro do carro, entre dezenas de “você viu aquilo?” ou “ouviu quando ele disse que é melhor que Seattle”, meu corpo doía como se eu tivesse sido atropelado por uma carreta.

Na casa da minha avó, depois de uma salvadora pizza de calabresa e copos de coca-cola gelada, vamos dormir. Meu ouvido tem zumbidos que não cessam, como se fossem souvenires daquela noite. Com a cabeça no travesseiro, e ainda sem acreditar no que havi presenciado, só consigo pensar em uma coisa. Nas sábias palavras roucas do Melão. “Amanhã tem outra vez”. Era tudo o que precisava para uma noite tranqüila de sono.

Pearl Jam Live In São Paulo

<<Parte 2

Parte 4>>