Os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro acabaram há pouco mais de uma semana, e agora começam as discussões sobre o legado deixado pela competição. As arenas caríssimas e superfaturadas agora têm os seus futuros discutidos. O Engenhão, moderno estádio construído especialmente para o Pan, foi concedido ao Botafogo por vinte anos. A obra toda feita com (muito) dinheiro público agora será administrada por um clube particular por um aluguel mensal de cerca de R$ 36 mil mais a manutenção do lugar. O time de coração do prefeito carioca César Maia parece ter feito um grande negócio. Mandará seus jogos em um moderno estádio de R$ 400 milhões ainda cheirando à tinta por um valor muito abaixo do que foi gasto com a construção da arena.
Durante os quinze dias de competições, a questão da segurança no Rio não foi discutida em nenhum momento graças a sua “eficiência”. De uma semana pra cá, voltaram aos noticiários os casos de morte de inocentes vítimas de balas perdidas. As guerras entre traficantes continua matando diariamente. Casos como o de João Hélio e o dos playboys que batem em empregadas foram esquecidos.
Os responsáveis pelo Pan preferem divulgar que o maior legado deixado pelo evento foi o esportivo. Afinal de contas, a delegação brasileira deste ano foi responsável pela melhor participação do país na história dos Pans. Conquistamos 54 medalhas de ouro, de um total de 161. Vencemos batalhas épicas, como no futebol feminino. As meninas do Brasil humilharam a fortíssima seleção sub-20 dos EUA na final. Algo que, infelizmente, o time feminino de basquete não conseguiu, ao ser derrotado por um time amador dos mesmos EUA. Mas a participação brasileira no Pan nos traz esperança de uma grande festa brasileira em Pequim, ano que vem. Nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, em 2003, conquistamos 29 medalhas de ouro. Um anos depois, nas Olimpíadas de Atenas, em nossa melhor campanha, atingimos a impressionante marca de 5 ouros. Ficamos atrás de potências como Romênia e Hungria.
Com excessão do nadador César Cielo, que ficou a menos de dois décimos de segundo do recorde mundial, nenhum atleta mostrou potencial para medalhas em Pequim. Aliás, recordes mundiais são os maiores tabus dos Jogos Pan-americanos. Desde 1979, nos jogos de San Juan, em Porto Rico, quando o americano Reinaldo Nehemiah quebrou a marca dos 110m com barreiras, nenhum atleta se atreveu a escrever seu nome na história.
As vaias também parecem ter sido um dos legados do Pan. As manifestações, não só ao Presidente da República (sem entrar no mérito de um possível merecimento), mas também aos competidores de delegações estrangeiras, mostram a educação primorosa de um povo que pleiteia a realização da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
O Pan teve orçamento inicial de R$ 900 milhões, mas como é sabido custou cerca de R$ 3,6 bilhões. Talvez, se esses R$ 2,7 bilhões gastos a mais tivessem sido utilizados de forma mais inteligente, como, por exemplo, na segurança do nosso sistema aéreo, é provável que fosse evitado aquele que, na minha opinião, é o maior legado dos Jogos Pan-americanos de 2007: a morte de 199 pessoas do vôo 3054 da TAM.




4 Comentários
Terça-feira, 07 Agosto, 2007 às 7:09 pm
O pior não é isso. Depois do Pan, mesmo com o governo federal disponibilizando boa parte da polícia oferecida nos jogos para o Rio, as mílicias já começaram a agir nos morros e os tiros já podem ser ouvidos pelos moradores.
Quarta-feira, 08 Agosto, 2007 às 9:26 am
Concordo. Não podia ter herança pior do que esta…
Triste realidade de um país que parece não se importar com as coisas que importam. São mestres das vaias, mas na hora do vamos ver, todo mundo prefere assistir futebol, beber cerveja e fingir que vivemos no país maravilha.
Quarta-feira, 08 Agosto, 2007 às 1:48 pm
Ei, Ana, Léo, vamos criar um Movimento Cívico também? Está na moda! O “Canseira é luxo”. Afinal, eu não tenho nem o desfrute de dizer que estou cansada. No Brasil, aqueles que se cansam são os que mais praticam a modalidade esportiva do ócio.
Quinta-feira, 09 Agosto, 2007 às 1:35 pm
And I just don’t care.