A marginal Pinheiros está infernalmente cheia nesta noite de domingo. Durante o fim de semana na capital, eles passaram os dois dias dentro de um auditório assistindo palestras de gente que vive uma realidade diferente daquela do jornal interiorano ou da pequena assessoria . Ela sabe que nunca vai acordar às 4h30 da manhã para ler os jornais do dia. E nada fez com que ele desista de meter o pau em suas humildes e pouco lidas críticas sobre música.
Cansado, ele dirige seu carro 1.0, mais do que suficiente para a lentidão daquela via, com sua namorada ao lado. Apenas reza para que o óleo do motor sobreviva ao fim dessa viagem. Os vidros estão fechados, mas o cheiro podre das águas do rio invade o seu veículo, que há tempos precisa de um banho. Talvez o cheiro não seja só do rio.
Surge, então, uma discussão comum em viagens de casais. Ele não queria mais ouvir os discos de trilhas-sonoras de comédias românticas. Ela se recusou a escutar qualquer banda inglesa que tenha aparecido nos últimos três dias. A namorada, sem muita paciência para uma discussão, sugere que eles ouçam rádio FM. Ele aceita, mesmo sabendo que isso nunca dá certo. Ela pergunta se ele conhece alguma estação paulistana. O motorista diz saber só a freqüência da 89FM, mas veta a rádio que se tornou um lixo desde que abandonou o bordão de “rádio rock”. Ela começa a zapear pelo rádio.
No começo da noite de um domingo não há esperança no rádio. São dezenas de estações sertanejas, outras tantas tocam pagode feito por universitários brancos de alguma faculdade particular. Até que ela decide parar naquela que tocava a última do James Blunt, que ele não sabe o nome, mas mesmo assim topa por falta de opção. Durante a música, eles conversam sobre a única canção do inglês a fazer sucesso, mesmo tendo a letra mais cretina da história. Ela concorda, mas admite gostar daquele hit grudento que tocou na novela. Mas assume sua culpa de forma tão meiga, com um daqueles sorrisos de canto de boca, meio encabulada, que ele se recusa a rebater.
A música acaba, mas eles continuam ouvindo àquela estação. Nos primeiros acordes, ele já reconhece o que vem a seguir. Mesmo sendo uma das bandas que mais gosta, o namorado sempre disposto a críticas, questiona qual é a coerência do programador daquela rádio que, logo depois de tocar uma mela-cueca do James Blunt, solta “Black Hole Sun”, do Soundgarden. Será que, em algum dia de sua vida, ele se informou sobre música? Ou simplesmente ligou o shuffle e deixou rolar? Entre uma pergunta e outra, alguns desacatos.
Ela ria da raiva sincera que ele sentia. Tentou, por uma ou duas vezes, argumentar favoravelmente ao radialista. É possível que ela até tivesse boas colocações a fazer. Mas desistiu diante da teimosia do namorado. Nesse momento, a capital ficava para trás, e a rádio do programador sem noção começava a chiar…



3 Comentários
Segunda-feira, 03 Setembro, 2007 às 9:31 am
Certamente ela tinha boas colocações.
Mas no que diz respeito à música, ela tenta cada vez menos expor as idéias, já que tudo vira uma infindável e desgastante discussão. E a cabeça dele é mais dura que a vontade dela de discutir.
Mas é o cabeça-dura mais lindo que ela já viu. E depois, não tem coisa mais apaixonante vê-lo tão fiel aos seus ideais.
Num relacionamento com tantas diferenças de opiniões, seria ridículo se concordassem logo com a música do rádio FM da noite de domingo da capital paulistana.
E é isso que ela mais ama.
Segunda-feira, 03 Setembro, 2007 às 2:02 pm
Da próxima vez, põe na 107.3 que fica tudo beleza.
Segunda-feira, 03 Setembro, 2007 às 8:27 pm
Eu acho bacana uma rádio eclética assim.
Serious!