No melhor estilo nossos-ídolos-ainda-são-os-mesmos, há quem curte o mesmo som que embalou a juventude dos pais
“It must be the colors
And the kids
That keep me alive
‘Cause the music is boring me to death”
O músico Júlio Antônio Zanini Neto tem 57 anos e os Beatles, Creedence Clearwater Revival, Led Zeppelin e Grand Funk Railroad estão entre suas bandas preferidas. Júlio é guitarrista da banda Na Contramão, muito conhecida nas cidades da Região. No palco, quando olha para o lado, na outra guitarra, vê seu filho, o jornalista Marco Antônio Zanini. Os ídolos de Marco? Os mesmos do pai. Os anos passam, bandas aparecem, outras somem. Essa equação, porém, ganhou velocidade desde o início deste século. Com a Internet, MP3, iPods e todas as etc tecnológicas por aí, em questão de semanas uma nova banda surge para salvar o rock e desaparece com velocidade proporcional ao entusiasmo dos críticos com relação à salvação do rock da semana seguinte.
A indústria fonográfica, que durante décadas foi a fábrica de ídolos mundiais, parece ter jogado a fórmula fora. E é por isso que Marco Antônio ainda se inspira no quarteto de Liverpool ou na mística dupla Jimmy Page e Robert Plant para tocar em sua banda. “Muitas bandas que eu escuto acabaram antes mesmo de eu nascer. As outras, como Rolling Stones, eu não peguei aquele momento efervescente”, disse.
Para ele, a falta de originalidade é uma das principais causas da falta de ídolos. “Muitas bandas da década de 90 ou dessa têm os dois pés nos anos 60 e 70”, afirmou. “Não existem ídolos hoje, não tem algo que se sustente”, sentenciou. “Eu vivo muito o U2. Gosto da forma como o Bono Vox escreve e como The Edge constrói texturas com a guitarra. É uma banda na ativa, mas que foi criada em 1978. Mas o Bono sabe se reinventar”, disse o jornalista.
Para Júlio, há muita mediocridade na música de hoje. “Falta qualidade às bandas. Não enche uma mão os grupos bons da década de 80 para cá”, afirmou. “Na minha época, era difícil escolher. Eu tenho três grandes referências: John Lennon, dos Beatles, John Fogerty, do Creedence, e o John Kay, do Steppenwolf. E meus filhos foram influenciados por isso”.
“Hoje não existe musicalidade. Vejo a música como a pulsação do coração. Antigamente, era a de um homem cheio de vida. Hoje, é como se ele estivesse morto”, disse.
O trecho que inicia este texto, da canção “Color And The Kids”, da ótima cantora norte-americana Cat Power, expressa de maneira clara o sentimento de grande parte dos jovens com relação à música que é feita hoje: “Devem ser as cores e as crianças que me mantêm viva/Porque a música está me matando de chateação”. Em seu próximo disco, “Jukebox”, previsto para 2008, Cat Power homenageia seu grande ídolo, Bob Dylan, na canção “Song To Bobby”. O próprio Dylan, que enfureceu os fãs ao trocar o violão pela guitarra em “Like a Roling Stone”, nos idos anos 60, época antes dela nascer.

Júlio Antônio e o filho Marco Antônio dividem
o palco e o gosto pelas mesmas bandas
Uma nova relação com a música
O professor de Literatura da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Alcir Pécora afirmou que as celebridades sem conteúdo ou importância artística, como a herdeira – se é que se pode creditar alguém por isso – Paris Hilton, superaram os ídolos musicais. Mas ele não acredita que essa inversão tenha se dado somente pela falta de qualidade da música produzida hoje. “A resposta óbvia seria que os caras de antes eram melhores. (Bob) Dylan e (Jimi) Hendrix se sustentam pela qualidade, mas a estrutura mudou muito. Fora do mainstream encontra-se coisa muito boa, como o stoner e o desert rock americano. Hoje o sistema está desorganizado. O lugar da música mudou”.
Para Pécora, as mudanças tecnológicas, como os aquivos MP3, foram essenciais para esse processo. “Hoje ninguém mais tem objetos para cultuar. Antes, as pessoas ficavam lá, olhando para capas dos LPs, pôsteres”.
O jornalista Pedro Couto concorda com Pécora. “A forma como a pessoa se relaciona com a música mudou. Hoje, em um MP3 player cabem 100 artistas diferentes. Se ela quiser, liga o shuffle, passa pra frente, pula a música, reorganiza a lista. Antigamente, colocava-se o LP no toca-discos e ninguém ficava levantando pra trocar de música, não tinha controle remoto. Tinha que ouvir o disco inteiro. Hoje, acabam perdendo a chance de dar mais atenção aos detalhes”, afirmou Couto.
“A falta de ídolos é conseqüência da forma rápida como se consome música hoje. O cara escreve de manhã, grava à tarde e lança à noite, na Internet. Tudo isso de casa”, exemplificou Couto. “Não dá para absorver a quantidade de banda que está surgindo”, disse. “É como ficar com uma menina na balada, beijar e ir embora sem nem saber o nome dela. Eu comecei a ouvir o Arctic Monkeys agora e eles são passado. A Pitty tem dois discos de estúdio e lançou um ‘Ao Vivo’”.
Pécora afirmou que a criação de ídolos depende de uma conjunção de fatores. “Depende da efervescência de uma época, da força de um momento histórico. O grunge, no começo da década de 90, foi o último desses momentos. E Kurt Cobain foi o último grande ídolo musical que surgiu”, disse. “A música, agora, ficou mais como trilha sonora, não pauta mais a vida de ninguém”.

Couto: “A falta de ídolos é conseqüência da forma
rápida como se consome música hoje”
Publicado no Jornal TodoDia, em 07/12/2007



6 Comentários
Sexta-Feira, 07 Dezembro, 2007 às 10:30 pm
Nossa!
Esse jornalista Pedro Couto é bem supimpa!!
Que inteligência e didatismo nas suas citações!
HAHAHAHAHAHA
Ficou bem massa, Léozito!!!
Valeu (pela entrevista e pela leitura!)
ABRASSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS
Domingo, 09 Dezembro, 2007 às 5:55 pm
Supimpa, bróda! Mas Cat Power uma ótima cantora… hum…
Domingo, 09 Dezembro, 2007 às 5:55 pm
Ah, e ainda chamou um bróder pra opinar! Que mandrake! Putz…
Domingo, 09 Dezembro, 2007 às 10:24 pm
Pô, cê errou o nome do Marcílio aí. Ele vai ficar bravo…
Segunda-feira, 10 Dezembro, 2007 às 8:22 am
Pô, Gustavo… Cat Power é legal, sim… Cê precisa ouvir direito…
E, cara, fechando seis suplementos por semana (se não me perdi nas contas) e fazendo abres do Bee Gees Cover para o Z, até os brother são poucos pra opinar… Pensei até em entrevistar o Sr, em uma próxima…
e Jão, eu acertei sim.. Esse aí é o Pedro mesmo, o pai do Marcílio…
Quinta-feira, 13 Dezembro, 2007 às 12:54 am
De fato, a música (pelo menos a que se chama ‘pop’) não evoluiu. A busca da máxima comercialização levou à extrema banalização. Nada de novo. Eu não tenho paciência – hoje em dia – para ouvir um minuto sequer de rádio. Então, as bandas antigas ainda são uma excelente opção para quem gosta de música de boa qualidade.