Banda vem ao Brasil para divulgar seu último CD, um álbum com “novos sabores”, embora cheio de refrões repetitivos e grudentos
Em frente ao Grand Hyatt, um luxuoso hotel na região do Brooklyn, em São Paulo, algumas dezenas de garotas se aglomeravam e atrapalhavam, de certa forma, o já caótico trânsito do lugar. A fina garoa que caía na Capital, sexta-feira passada, perigava se tornar mais um daqueles temporais que viraram a paulicéia de ponta-cabeça naquela semana. Em uma sala apertada no segundo andar do hotel, muitos jornalistas tentavam descolar uma das poucas cadeiras para se sentar.
A missão não era das mais fáceis. Ouvir o novo disco do Simple Plan, que leva o nome da banda e terá lançamento mundial dia 12 de fevereiro. A banda canadense havia acabado de chegar ao Brasil para divulgação do novo trabalho, e uma entrevista coletiva estava marcada para a sala ao lado, logo após a audição.
O disco? Um sentimento de déjà vu tomou conta de mim quando ouvi a primeira música – na verdade, a sétima, já que havia chegado pouco atrasado. As guitarras tocadas com muita vontade e pouca técnica, os refrões repetitivos e grudentos. Canções que poderiam estar em qualquer um dos dois primeiros discos do Simple Plan – “No Pads, No Helmets… Just Balls” (2002) e “Still Not Getting Any” (2004).
Se o básico continuava a ser o Simple Plan de sempre, alguns poucos detalhes, ouvidos com mais atenção, realmente indicavam que aquele era um trabalho novo. “Toda banda deve fazer algo novo durante sua carreira”, disse o baterista Chuck Comeau. “É um novo disco e queríamos incluir novos sabores ao que já fizemos antes”, explicou o vocalista Pierre Bouvier, sem deixar dúvidas sobre o “novo”.
Os “novos sabores” a que Bouvier se referiu durante a coletiva, já em uma sala espaçosa e confortável, foram levados pelo produtor Danja, pupilo de Timbaland, o grande nome da música americana, ainda que por trás dos microfones. Danja acrescentou levadas dançantes ao punk-pop dos canadenses, como na faixa “The End”, e batidas de hip-hop em “Generation”. “Mas ainda somos uma banda de rock. Quem sempre gostou do Simple Plan, vai continuar gostando”, adiantou-se Bouvier, prevendo qualquer comentário negativo por parte da crítica ou dos fãs.
Outras nove músicas fazem parte do álbum. Entre elas “What If”, que comprova a impressionante velocidade da cultura pop em tempos de internet. “É um ensaio sobre o seriado de TV ‘Heroes’, sobre mudar e melhorar o mundo”, garante o release distribuído pelo staff da banda. “Heroes”, que está apenas em sua segunda temporada, faz referências a símbolos dessa geração, como o YouTube, onde milhares de vídeos do Simple Plan podem ser assistidos, em gravações legais e ilegais, de graça. “Não importa o formato, o importante é que eles (os fãs) amem a música”, garantiu Chuck, não sem antes deixar claro que é contra a pirataria.
A escolhida para ser o primeiro single foi “When I’m Gone”, que, por sinal, tocou repetidamente, por quase uma hora, enquanto a banda se preparava para a entrevista. No final das contas, o novo álbum não demonstra muita vontade de ser lembrado artisticamente pelo resto de minha vida. Ele, porém, tem todos os elementos para ser um novo sucesso comercial, principalmente entre os adolescentes.
De volta à entrevista, um jornalista de um veículo paulistano ergue a mão. E faz aquela pergunta óbvia, que todos naquela sala já tinham pensado, mas não haviam perguntado simplesmente porque alguém faria. “Vocês já vieram ao Brasil outras vezes. O que acharam do público?”, questionou o colega. “É um dos melhores lugares para tocar”, rasgou seda o baixista David Desrosiers, em uma resposta tão óbvia quanto a pergunta. “Sempre mencionamos o Brasil como um dos grandes lugares em que já tocamos”, afirmou o guitarrista Jeff Stinco. “Eu sempre escolho a Seleção Brasileira para jogar Fifa no PlayStation”, confidenciou o outro guitarrista, Sebastien Lefebvre, em uma resposta mais simpática do que relevante, antes de surpreender a todos, não só pelo conhecimento como pelo mau gosto. “Eu gosto de Nx Zero”. Algumas risadas contidas foram ouvidas pelo salão.
Uma turnê mundial deve começar assim que o disco for lançado oficialmente. “Nós viremos ao Brasil, com certeza”, contou Jeff, sobre o show que deve acontecer ainda no primeiro semestre. A entrevista terminou por volta das 18h, e as dezenas de garotas na porta do hotel já tinham se transformado em uma centena, com ajuda de alguns garotos. Um deles, de São Bernardo do Campo, prometeu não deixar o local até domingo, quando a banda partiria. Todos eles cantavam alto, na expectativa que o Simple Plan desse as caras. Não ficamos para conferir se isso aconteceu, muito menos para ver o garoto do ABC cumprir sua promessa. O trânsito infernal da Marginal Pinheiros e o céu negro da Capital paulista nos convidavam a deixar a cidade o mais rápido possível.

Publicado no Jornal TodoDia, em 25/01/2007



5 Comentários
Sábado, 26 Janeiro, 2008 às 12:29 pm
Mais uma prova latente de que ser jornalista é sofrer.
Ouvir REPETIDAMENTE uma mesma música do Simple Plan é a) tortura ou b) indução ao suicídio.
Sente-se bem, Léo?
Terça-feira, 29 Janeiro, 2008 às 7:40 pm
Hum… este texto me lembra um escrito por Wolfe sobre um show do Rolling Stones… Mas ele se referia as “garotas” como “brotinhos flamejantes”. Hahaha. Núria também é cultura, manja?
Quarta-feira, 30 Janeiro, 2008 às 6:55 pm
Queria ser jornalista de cultura pra entrevistar o Bob Dylan logo de cara, negão? Toma essa, hehehe!
E NNX… acabou de sair das fraldas e já quer botar banca, né?
Domingo, 03 Fevereiro, 2008 às 9:49 pm
“When I’m gone” ficou na minha cabeça durante muitos dias… mas, graças a Deus, já passou. Eu ainda fiquei mais tempo lá no hotel, pois falei diretamente com o Pierre e o Sebastien… e as garotas permaneciam em frente ao hotel…
coisas de boy bands!
até mais
se cuida!
Terça-feira, 29 Julho, 2008 às 10:58 pm
boa banda