Segunda-feira, 21 Abril, 2008...8:39 pm

Better Than Seattle (Parte 1)

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Dois de dezembro de 2005, estádio Paulo Machado de Carvalho. Não há corintiano que não se sinta em casa aqui. Minha última lembrança do Pacaembú é até recente. Estive aqui há cerca de quinze dias, ao lado de outras 30 mil pessoas, torcendo pelo Corinthians, no jogo contra o Internacional de Porto Alegre, pelo Campeonato Brasileiro. O empate em um a um, com gol de Carlitos Tevez, praticamente selou o tetracampeonato do meu time. No jogo deste domingo, podemos até perder para o Goiás, em Goiânia, que mesmo assim daremos a volta olímpica.

Hoje, no entanto, a minha sensação ao chegar ao Pacaembú é um pouco diferente. A praça Charles Miller, em frente ao estádio, continua a mesma. Uma ou outra barraquinha vendendo lanches, cerveja, garrafinhas d’água. O cheiro de peixe da tradicional feira que ocupa o espaço durante a semana continua forte no ar. Mas a polícia se mostra mais calma. A fila para entrar pelo portão principal está mais organizada do que o habitual.

Foi uma longa espera. Exatos 15 anos. Desde que se ouviram os primeiros acordes de “Alive” ou “Jeremy” saindo de Seattle. Em julho já pipocavam boatos de que eles finalmente tocariam em terras brasileiras. Boatos que se repetiam. Eu já tinha ouvido a mesma história por anos e anos, e isso nunca havia se confirmado. Mas um detalhe trazia mais credibilidade à notícia. Antes de confirmarem um show na cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, a página inicial do site deles tocava a melodia “Eye Of The Tiger”, eternizada por Rocky Balboa, O Lutador, que se tornou símbolo daquela cidade ao treinar sem parar pelas escadarias do Museu de Arte da Filadélfia, antes da épica luta contra Apollo, o Doutrinador.

A trilha sonora dessa vez era de esperança para os fãs brasileiros. E quem trazia a boa notícia era Tom e Vinícius. “Garota de Ipanema” ecoava calmamente no site oficial do Pearl Jam, a maior banda do planeta. Para mim, pelo menos.

Eu definitivamente não sou fã de Bossa Nova. Mas naqueles dias eu me pegava, vez ou outra, assoviando pelos cantos de minha casa a melodia mundialmente conhecida. Ainda assim, tudo não passava de boataria. Nenhuma fonte oficial tinha confirmado, ou ao menos negado, a possível turnê por terras brasileiras.

Não demorou muito para que isso acontecesse. Não só os shows no Brasil foram marcados, como toda uma turnê latino-americana, que começaria em Santiago, no Chile, no dia 22 de novembro com dois shows. Depois, seguiria para Buenos Aires, na Argentina, e, dali, finalmente para o Brasil. Porto Alegre seria a primeira cidade em que o Pearl Jam tocaria. Curitiba receberia a banda no último dia de novembro. São Paulo teria a honra de hospedar dois shows, dias dois e três de dezembro. A última parada brasileira seria no Rio de Janeiro, que veria os batuques e as mulatas em trajes mínimos serem substituídos por guitarras e por uma molecada de camisa de flanela xadrez na Praça da Apoteose. O Pearl Jam fecharia a turnê com shows em Monterrey e na Cidade do México, na pátria asteca.

Mas, para o final feliz dessa história, ainda faltava muito. Uma das principais exigências da banda para tocar aqui no país era de que eles não fariam shows em locais com mais de 40 mil pessoas, por questões de segurança. A preocupação do Pearl Jam explica-se pela tragédia ocorrida em 2000, durante o festival de Roskilde, na Dinamarca, em que nove pessoas morreram pisoteadas durante a apresentação dos americanos. Episódio que quase causou o fim da banda.

O problema parecia resolvido. O Pacaembú, que já foi palco de dezenas de grandes shows, se enquadrava perfeitamente nos padrões de segurança exigidos pela banda. Parecia, apenas. A região do estádio é uma das áreas residenciais mais nobres da capital paulista. Em setembro, um evento de uma rádio da cidade acabou três horas depois do autorizado, invadindo a madrugada de uma segunda-feira. Foi o suficiente para que os moradores do bairro reclamassem – com certa razão – e fossem atendidos para que o Pacaembú não pudesse mais ser palco de shows.

Era tudo o que eu não podia ouvir naquele momento. Dois meses depois de anunciados os concertos, eles corriam o sério risco de não acontecer. Uma queda de braço entre os organizadores e a prefeitura municipal piorava a situação. A CIE Brasil, empresa que trazia o Pearl Jam para a excursão canarinha, batia o pé com relação ao estádio, por já contar com uma estrutura completa, barateando assim os custos do evento. A prefeitura defendia os interesses dos moradores e mantinha a proibição. O cancelamento de todos os shows era uma possibilidade real, ventilada diariamente na imprensa. Foram semanas de indefinição. A Garota de Ipanema que eu insistia em assoviar agora mais parecia a marcha fúnebre do meu sonho.

Os dias passavam e nenhuma resposta conclusiva era dada. Reuniões aconteciam entre organizadores, moradores e representantes da prefeitura. E nada. Ingressos eram colocados à venda no Chile e na Argentina. E, por aqui, nada.

Os fãs se organizavam pela internet e lotavam as caixas de e-mail dos responsáveis. Até uma pequena passeata foi organizada em frente à prefeitura da capital.

Até que no dia 20 de outubro chegou, finalmente, a notícia que todos queriam ouvir. O Pacaembú estava liberado, mas a organização teria uma série de exigências para cumprir. O show deveria terminar até às 21h45, a limpeza do estádio e das ruas ao redor eram de responsabilidade da empresa, e deveriam ser feitos no dia seguinte ao último show.

Pearl Jam - Live in São Paulo

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