Faithfull
Aquela quarta-feira, 26 de outubro de 2005, tinha tudo para ser só mais um dia normal, não fosse um detalhe: era o primeiro dia da venda de ingressos para os shows do Pearl Jam no Brasil. Com toda a repercussão dada ao evento, esperava-se que as entradas se esgotassem em pouco tempo. Eu não podia me arriscar a ficar sem. Fui à faculdade normalmente pela manhã. Já tinha me decidido a ir naquela tarde à FNAC do Shopping Dom Pedro, em Campinas, garantir meus ingressos – para os dois shows.
Minha cabeça doía um pouco, graças à enxaqueca que me acompanha desde pequeno. Meu remédio tinha acabado. Mas eu tinha que escolher entre comprar os comprimidos ou subir logo no primeiro ônibus para Campinas atrás das minhas entradas. Eu, obviamente, escolhi a segunda opção. Na rodoviária campineira, peguei mais um ônibus, agora com direção ao shopping. Minha cabeça pulsava de dor e minha pressão estava já próxima ao meu pé. Minha boca estava seca, mas meu dinheiro contado não me permitia o luxo de tomar uma garrafinha d’água. Cheguei ao balcão da FNAC exatamente às 15h. Confesso que eu mal me lembrava da enxaqueca ou qualquer coisa do tipo. Pedi à atendente, em voz alta, pra que todos soubessem o que eu estava fazendo ali, um ingresso de pista para o show do dia dois e um de cadeira para o dia três. Foram os R$132 mais bem gastos de toda a minha vida. Para mim, eram os bilhetes dourados de Willy Wonka. O Pacaembú, nos dias dois e três de dezembro de 2005, seria a minha Fantástica Fábrica de Chocolate.
De volta ao ônibus, de volta à minha realidade. A enxaqueca era proporcional à minha alegria. A dor era insuportável. E eu só conseguia lembrar que ainda estava a duas viagens de ônibus de minha casa.
Já no lar, a dor não cessava. Ainda sem o remédio, fui levado ao hospital. Recebi algumas doses de dipirona sódica com plasil diretamente em uma das veias do meu braço direito. Os ingressos estavam bem guardados, na gaveta do meu criado-mudo. Eu sabia que a enxaqueca passaria logo.
I Believe in Miracles
Foi uma longa aventura até chegar aqui. Eu e o Melão, amigo tão fã da banda quanto eu, chegamos de manhã. Almoçamos na casa da minha avó, perto do Aeroporto de Congonhas. Conseguimos carona até o Pacaembú com um amigo do amigo do meu primo. Cara muito gente fina, também chamado Leonardo. Antes das 16h já estávamos na fila, ao lado de outros amigos da faculdade, que tinham vindo de van. Mas ainda dava tempo para mais um drama. Dessa vez, não comigo, mas com o Melão. Ele havia esquecido sua carteirinha de estudante na casa da minha avó. Sem carteirinha, sem autorização. Expliquei pra ele que não tinha dinheiro suficiente para um táxi, como chegar à casa de minha avó pelo metrô. Fiquei na fila, esperando-o voltar. Os portões seriam abertos por volta das 17h. Ele tinha pouco mais de uma hora para cruzar a cidade por baixo da terra e voltar, com sua carteirinha em punho. Dez minutos de atraso, e nosso lugar em frente ao palco estaria seriamente ameaçado.
Enquanto isso, ambulantes passam por todos os lados vendendo de chaveiros a camisetas piratas. Eu me seguro pra não beber nem mesmo uma cerveja, apesar da vontade. Uma leva a outra, e em pouco tempo eu estaria bêbado, algo que não quero que aconteça. Não posso esperar tanto tempo por isso e depois esquecer por causa de seis ou sete latinhas de cerveja.
Os portões finalmente são abertos, a fila anda. E nada do Melão chegar. Um policial me revista, quando ouço o meu nome sendo gritado. Melão e sua carteirinha estavam de volta ao jogo.
Passadas as catracas, já dentro do Pacaembú, posso ver o palco. Não muito grande, todo preto. Dois banners gigantescos dos patrocinadores enfei(t)am aquele palco, com dois telões, um de cada lado. Saímos correndo, pisando no gramado, hoje protegido por grandes placas de madeira. Encontro novamente meus amigos da faculdade na pista. Estamos mais perto do que eu imaginava do palco. Coisa de, no máximo, 15 metros. Dali posso ver todos os equipamentos de som cobertos por plástico pretos, como aqueles de sacos de lixo. Há alguns dias chovia em São Paulo, sem parar. Hoje a garoa ia e voltava, mas nunca era promovida à chuva.
Conforme o tempo vai passando, a pista vai enchendo. Já estou bem apertado aqui no meio. Tenho a impressão de que, quanto mais gente vai entrando, mais perto fico do palco.




3 Comentários
Terça-feira, 22 Abril, 2008 às 8:06 pm
[...] About Judas Better Than Seattle (Parte 2) [...]
Quarta-feira, 23 Abril, 2008 às 8:13 pm
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Sexta-Feira, 22 Agosto, 2008 às 3:01 pm
po0w maneira essa parada
q vc fez com as musicas
shoo0w msm..vlw.