Given to fly
O show de abertura está marcado para as 18h30. Mudhoney, a banda precursora do grunge, o último grande movimento do rock. Geograficamente baseado na cidade de Seattle, no noroeste dos Estados Unidos, o grunge não foi só um punhado de bandas fazendo um som parecido no começo dos anos 90. Uma mistura do punk com heavy metal, sem a preocupação estética que a música dos anos 80 tinha, com seus vocalistas de cabelos armados, coletinhos de lantejoula e calças agarradas. O grunge era sujo, desgrenhado, como o cabelo dos garotos que assistiam aos shows em bares escuros de Seattle. Era um som de garagem. Dava até pra ver a graxa nas unhas dos guitarristas. O Mudhoney, com o Melvins e do Mother Love Bone, podem ser considerados os pais da criança. Em 1991, com o lançamento da obra-prima “Nevermind”, do Nirvana, e suas 25 milhões de cópias vendidas pelo planeta, o grunge saiu dos bares imundos da cidade americana direto para os grandes estádios do mundo.
Além da banda de Kurt Cobain, Alice in Chais, Soundgarden e Pearl Jam ajudaram a tirar as camisas de flanela do guarda-roupa de muita gente. E hoje eu poderei ouvir criador e criatura. Mudhoney e Pearl Jam. A menos de 15 metros de distância.
Pontualmente às 18h30 Mark Arm, lendário vocalista do Mudhoney, pisa no palco. O sorriso em seu rosto denuncia a alegria por tocar em frente a 40 mil pessoas. Um “Boa noite, São Paulo” e só. Duas músicas são o suficiente pra deixar claro que meu preparo físico é medíocre. Minhas pernas já doem, e, se eu pudesse ouvir minha própria voz, diria que já estou rouco. As bordoadas na bateria abrem “In’n’Out Of Grace”. Nesse momento, à minha esquerda, uma garota sobe nos ombros de um rapaz. Embalada pela gritaria, ela começa a me mostrar do que é feito um show de rock de verdade. A camiseta branca que ela vestia agora é girada sobre sua cabeça. Dois ou três giros depois, é a vez de o seu sutiã “cair” e levar a platéia ao delírio. Não, ela não era bonita. Talvez ela não chegasse nem próxima disso. As dezenas de mãos que tentam tocar seus seios quase a derrubam. Ela desce dos ombros do amigo/namorado ovacionada pelo público. Rock and roll, man.
Com o show rolando, perdi a noção de espaço. Era impossível lutar contra a multidão. Desisti. Eu me deixo ser levado, para todos os lados ao mesmo tempo. Foram 45 minutos de guitarras estourando os meus tímpanos. Mark Arm se despede com um até amanhã. Respondo com um “até” que eu sei que ele não ouviu.
De novo em cima do horário marcado, eles vão entrando, um a um, no palco. Eddie Vedder, o vocalista, com seu caderninho e uma garrafa de vinho sem rótulo. Mike McCready, o guitarrista, desfila com seus cabelos vermelhos à la pica-pau. Stone Gossard segura sua guitarra no alto, e Jeff Ament empunha seu tradicional baixo amarelo-ovo. No fundo, Matt Cameron discretamente toma seu lugar atrás da bateria. Sem nem mesmo um “olá”, o Pearl Jam emendas as enérgicas “Go” e “Hail Hail”. Eu não podia acreditar naquilo. A espera de 15 anos, a polêmica sobre o local do show, as horas deitado em uma maca no corredor de um hospital por causa de dois ingressos finalmente faziam sentido para mim. Ali, no meio de 40 mil pessoas, eu percebi que tudo aquilo valia a pena. Abracei o Melão, ainda na minha vista, e gritei “caralho” tão alto que descobri que minha voz realmente já tinha partido.
Estava difícil manter meu lugar. Muitas pessoas passavam por cima da minha cabeça, a maioria mulheres, que não agüentaram o tranco de ficar tão próximas ao palco.
Eddie, logo depois da terceira música, solta suas primeiras palavras ao público. “Oi São Paulo, esperamos anos para vê-los”, diz ele em um português ensaiado. “Temos nuvens e chuva, como em Seattle”, completa Eddie, levando o público ao delírio com a comparação com o templo sagrado do grunge.
Depois de muito lutar, não agüento, e passo a ver o show alguns metros mais longe. Já me perdi de todos os meus amigos. Mas esse é o tipo de coisa pra pensar só depois que o sonho acabar.
O Pacaembú parece influenciar as pessoas, que começam a cantar, entre uma música e outra, como se estivessem em um jogo de futebol, “Olê, olê, olê, olê…Pearl Jam, Pearl Jam”. A banda faz um show simples e direto. Sem teatros ou pirotecnias. A luz do sol que brilhava entre as nuvens no começo do show já tinham dado espaço para a noite, de céu muito escuro e de nenhuma estrela, quando as primeiras notas de “Untitled” são tocadas. Milhares de isqueiros são acesos, acima das cabeças, trazendo as estrelas que faltavam no céu para dentro do estádio. Eu olho para todos os lados, pra me certificar de que nunca mais esqueceria aquelas imagens. No meio da música, Eddie improvisa: “let’s get out of north america. Let’s get down to south america”. O público delira.
Mais gestos do que palavras são trocados entre público e banda. A todo o momento é possível ver os músicos sorrindo em cima do palco. De repente, todas as luzes são apagadas. Do meio da pista, em uma estrutura alta de ferro, um canhão de luz mira o microfone sozinho, no meio do palco. Caminhando em direção àquela única luz, Eddie Vedder aparece com sua guitarra azul, com o símbolo do The Who colado. Fã assumido da banda inglesa e amigo pessoal de Pete Townsend, guitarrista do The Who. No instrumento de Eddie, o tradicional símbolo dos dois círculos vermelhos, um dentro do outro, com uma seta apontando para cima, treme com uma única nota. Sozinho, de frente para o público, o vocalista entoa só uma palavra: “Waiting…”. É a deixa para que todos os presentes no estádio emendem a canção “Better Man”. Toda a primeira parte da música é cantada pela platéia. Nos dois telões, Eddie focalizado parece admirado com as 40 mil vozes que gritam os versos em inglês. Eu, perdido ali no meio, tento cantar o mais alto possível.
No fundo escuro do palco, é possível enxergar a silhueta dos outros membros do Pearl Jam. A troca de papéis fica clara. Os que deveriam aplaudir, cantam. Os que deveriam cantar, aplaudem. É impossível não perceber a emoção, e imaginar o que deve se passar na cabeça de alguém que vê 40 mil pessoas de um país que não fala sua língua cantar sua música em uníssono.
Quinze canções depois, a primeira pausa. Eddie pergunta, em inglês, se nós nos sentimos tão bem quanto eles. Ele se antecipa, e responde a própria questão. “Aparentemente não, porque nós nos sentimos muito bem”.
Na introdução da próxima música, em um diálogo novamente em português decorado, Eddie revela que a próxima canção é em homenagem a um grande amigo, falecido um ano antes. O público sabe que ele fala de Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones, que morreu vítima de câncer em 2004. A banda de Johnny é uma das mais adoradas no Brasil. Sentado em um banquinho, Eddie ouve um coro de “Hey Ho, Let’s Go”, o famoso refrão de “Blitzkreig Bop”, dos Ramones, gritado pelo Pacaembú. Ele olha para o céu, e, como se conversasse com o amigo, pergunta: “can you hear it, Johnny?”.
Os primeiros acordes de “Man Of The Hour” são tocados e algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto. Eu simplesmente não consigo me controlar. A homenagem ao amigo continua na música seguinte: “I Believe In Miracles”, cover da banda de Nova York, que precede “Last Kiss”, o principal hit do Pearl Jam. A letra triste sobre um casal de namorados separados pela morte da garota em um trágico acidente de carro tem o acompanhamento de todo o público, que bate palminhas, em um “clap-clap” que pode ser ouvido por metade de São Paulo.
O show já estava próximo de acabar, e eu começava a ficar preocupado. Com exceção de Porto Alegre, eles tinham tocado “Black” em todos os outros concertos da turnê. E o pior de tudo é que, perdido de meus amigos, eu não tinha quem xingar se eles não tocassem essa música.
Até que, na escuridão do palco, consigo enxergar Stone Gossard com uma guitarra acústica. Ele confere a afinação do instrumento. Eu havia prometido à minha namorada que ligaria para que ela também pudesse ouvir a música. Procuro pelo meu celular no bolso e ligo. Dois toques depois, ela atende. Com a voz embargada novamente pelo choro, só consigo dizer, antes mesmo do alô, “Ana, ouve isso, pelo amor de Deus”. A música se estende por mais de oito minutos. Eddie começa a agradecer. “Obrigado por nos esperarem por tanto tempo. Obrigado por nos ouvirem, e por cantarem conosco”. Ainda com ela na linha, Eddie diz, agora em inglês, a frase que deve ter ficado na cabeça de cada uma das pessoas que estavam se espremendo dentro daquele estádio. “This is better than Seattle”, completou o vocalista, antes dos primeiros acordes de “Jeremy”. Seu olhar de surpresa denunciava que aquilo não tinha sido dito só pra agradar o público.
No final do concerto, em “Yellow Ledbetter”, Eddie continua agradecendo a São Paulo pelo show. As luzes do palco se apagam, a banda sai de cena. Fico no meu lugar, me recuperando e tentando acreditar que tudo aquilo realmente havia acontecido. De repente, alguém me abraça. Era o Melão, eufórico e sem voz, como eu. Entre as muitas palavras que ele tentou me dizer, consigo identificar apenas algumas. “Puta qua pariu, você viu isso? E sabe o que é o melhor de tudo?”, questiona, respondendo logo em seguida. “Amanhã tem tudo isso outra vez!”. Eu concordo, balançando com a cabeça.
Saímos do estádio pelo portão principal, e encontramos o Leonardo, que nos daria carona de volta. Dentro do carro, entre dezenas de “você viu aquilo?” ou “ouviu quando ele disse que é melhor que Seattle”, meu corpo doía como se eu tivesse sido atropelado por uma carreta.
Na casa da minha avó, depois de uma salvadora pizza de calabresa e copos de coca-cola gelada, vamos dormir. Meu ouvido tem zumbidos que não cessam, como se fossem souvenires daquela noite. Com a cabeça no travesseiro, e ainda sem acreditar no que havi presenciado, só consigo pensar em uma coisa. Nas sábias palavras roucas do Melão. “Amanhã tem outra vez”. Era tudo o que precisava para uma noite tranqüila de sono.




3 Comentários
Quarta-feira, 23 Abril, 2008 às 8:17 pm
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Quinta-feira, 24 Abril, 2008 às 1:45 am
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