Better man
A lá Ramones, Eddie Vedder entra no palco pulando as caixas de som, agarra o microfone e de cara solta um “one, two, three, four”, as palavras mágicas para que a banda toque “Breakerfall”, uma porrada de três minutos que espanta de vez o frio. Só depois da quarta música, Eddie troca suas primeiras palavras com a audiência. “Então isso é um sábado à noite em São Paulo?”, pergunta ele, que como resposta recebe um grande urro do estádio. “Agora nos perguntamos por que não viemos antes”, confessa ele. “Que porra estávamos pensando?”, indaga em um português cheio de sotaque, antes de emendar “Given To Fly”, em que ele improvisou o verso “he made it to São Paulo, had a smoke in a tree” e levou todos ao delírio.
Neste segundo show, a banda parece estar em um clima diferente. Eddie, aparentemente embriagado pelo vinho, que mais uma vez está em suas mãos, mostra se divertir e faz muitas brincadeiras com o público. Como se eles tivessem tirado um peso dos ombros por terem feito um show extraordinário no dia anterior. “Já tocamos tudo o que sabemos ontem. Vamos nos divertir hoje”, eles devem estar pensando. Isso, geralmente, costuma dar muito certo.
Com uma única luz acessa do lado esquerdo do palco, Mike McCready toca duas notas na sua guitarra. Se nossas apostas tivessem sido reais, eu teria levado uma grana ainda naquela noite. “Present Tense”, uma música meio obscura na discografia da banda, que nunca é tocada, mas que tenho como uma das minhas preferidas.
Uma das tradições dos shows da banda é que sempre que eles tocam “Daughter”, no meio da música é incluída uma tag, geralmente um refrão de alguma música que Eddie pensa na hora mesmo, para interagir com a platéia. Mas hoje, pela primeira vez, antes mesmo do vocalista pensar em alguma música, o público já havia se decidido por “It’s Ok”, um cover da banda “Dead Moon”. Eddie não tem escolha a não ser seguir a multidão. O frontman pede para que a metade esquerda do estádio cante sem parar “It’s ok, it’s ok”, enquanto a metade direita canta “ô ô ô, ôôôô…”. E, como no dia anterior, o Pacaembú relembra seu espírito esportivo. Ao final da música, Eddie se curva diante do público, e agradece.
O aparente estado de embriaguez do vocalista do Pearl Jam se confirma quando Eddie gargalha ao errar o começo de “Small Town”. Depois de um breve intervalo, o vocalista volta só com um violão para uma belíssima versão de “You’ve Got To Hide Your Love Away”, dos Beatles. Depois desse momento de calmaria, Mark Arm e Steve Turner, do Mudhohey, sobem ao palco para uma jam grunge diante de 40 mil espectadores. Os sete músicos tocam “Kick Out The Jams” do MC5, banda da cidade de Detroit que ajudou a difundir a raiva do punk pelos Estados Unidos.
Depois de outro intervalo, o Pearl Jam volta ao palco para as últimas músicas do último show em São Paulo. “Whipping”, “Crazy Mary” e “Alive” encaminham a apresentação para o seu final. “Rockin In The Free World”, cover do canadense Neil Young, fecha o concerto, com Eddie bradando para que as pessoas “continuem fazendo o rock para um mundo livre”. A banda dá seu adeus à cidade de São Paulo, prometendo voltar o mais rápido possível. Eddie acena com a mão, até se perder no fundo escuro do palco.
Ainda sem palavras pelos acontecimentos dos últimos dois dias, puxo o Melão pela camisa para subirmos as escadas, em direção à saída. Saímos pelo mesmo portão pelo qual entramos. Meu ouvido agora tem o dobro de zumbido. Minha voz já não existe desde a segunda música. Compro uma água, já do lado de fora do estádio. Eu e o Melão não trocamos muitas palavras no caminho de volta. E não só pela rouquidão. Em êxtase, não tínhamos palavras para expressar tudo aquilo. Subimos a ladeira do Cemitério do Araçá, já próximos da estação do metrô. Tínhamos acabado de sair de mais um show do Pearl Jam. Foram quinze anos de espera para duas noites inesquecíveis.




3 Comentários
Sábado, 26 Abril, 2008 às 12:49 pm
[...] About Better Than Seattle (Parte 3) Better Than Seattle (Parte Final) [...]
Segunda-feira, 28 Abril, 2008 às 10:09 am
Olá, Leonardo!
Segue e-mail acima para contato.
Me mande um que lhe passo meus telefones para conversamos sobre o seu TCC.
Abraço!
Segunda-feira, 28 Abril, 2008 às 10:10 am
(criscastilho@gmail.com)