Cada vez mais a internet transforma anônimos em celebridades-relâmpago e ajuda a alavancar carreiras despretensiosas
Caruaru é uma cidade mediana do agreste pernambucano, com pouco mais de 250 mil habitantes. Segundo o Google Maps, uma viagem de Campinas até a cidade leva cerca de um dia e seis horas – em uma previsão extremamente otimista -, através de aproximadamente 2.484 quilômetros de estradas que cortam cinco Estados brasileiros. Caruaru é muito conhecida pelo forró e por seus artesanatos, além de ser a terra de Givanildo Silveira, Jeremias José e Ivanildo Holanda dos Santos, o famoso Caninha, o filho de Guéga.
Mallu Magalhães é só uma garotinha ainda. Mas já carrega nos ombros certa pressão depois que ganhou as páginas dos suplementos culturais dos maiores jornais do País e ao fazer shows lotados mesmo sem nunca ter lançado um disco sequer. Ao contrário de Mallu, Alexandre Inagaki já passou dos 30. Seus textos são mais lidos do que a maioria dos jornais brasileiros, apesar dele pouco escrever em periódicos que sujam as mãos de tinta.
Você, leitor, já deve ter ouvido falar desses personagens. A não ser que tenha se mantido recluso em algum canto do País em que não exista conexão com a internet nos últimos anos. Todos eles são hits da rede, alguns até de forma involuntária. Ainda assim, conseguiram, com a ajuda da web, deslanchar em suas carreiras – ou, ao menos, alcançaram alguns minutos de fama.
“A gente não esperava isso não”, conta Givanildo Silveira, repórter policial do programa Sem Meias Palavras, da TV Jornal de Caruaru, uma das retransmissoras do SBT em Pernambuco. “Um menino que trabalhava com a gente teve a idéia de montar o site e colocar os vídeos das reportagens. Até que um deles apareceu no Kibe Loco. Aí, meu amigo…”, conta ele. O vídeo a que Givanildo se refere é a matéria em que ele mostra Jeremias José, um morador da cidade que foi preso completamente embriagado enquanto dirigia sua moto. Na delegacia, Jeremias contou que veio do inferno e que “foi o cão quem butô (sic) pra nóis (sic) beber”. Depois ainda disse que “se pudesse, matava mil” e cantou um clássico do cantor brega Ovelha.
Pronto. Foi o que bastou para que as ocorrências policiais do bairro do Salgado e do Sítio Murici, em Caruaru, se tornassem conversas obrigatórias em qualquer rodinha de amigos. “A primeira foi a do Jeremias. Depois vieram as do Caninha e do Leonaldo. Eu vejo sempre o Jeremias por aí, e ele não largou da bebida não. O Caninha fiquei sabendo que parou”, conta ele. “Rapaz, uma vez, na praia, em Alagoas, um pessoal de São Paulo me reconheceu. ‘Olha lá o repórter do Jeremias’, eles falavam”, lembra.
Givanildo Silveira, o repórter policial “engraçadinho” de Caruaru, bomba no YouTube com reportagens como a que fez com o ébrio Jeremias José
Não é difícil saber o porquê da fama. As reportagens de Givanildo, carregadas de humor, já foram vistas por milhões de pessoas. No YouTube, a procura por “Sem Meias Palavras” resulta em 753 vídeos, muitos deles vistos mais de um milhão de vezes. “Eu procuro meu nome no Google e tem um monte de coisa”, diz. Além da fama repentina, a vida de Givanildo não sofreu muitas mudanças. Ele continua trabalhando no mesmo lugar, fazendo as mesmas reportagens. “Algumas ainda mais engraçadas”, garante ele, que promete para breve um novo site para que as matérias inéditas possam ganhar a internet também.
Já a vida da pequena Maria Luiza Arruda Botelho Pereira Magalhães deu “aquela desregulada” nos últimos meses, como ela diz. Em seu último aniversário, de 15 anos, decidiu trocar a festa de debutante por algumas horas em um estúdio de São Paulo para gravar suas composições. “Ah, um amigo meu falou: ‘porque você não põe no MySpace?’. Aí eu pensei: ‘É!’, pra ver no que dava”. E deu. Mallu foi descoberta, estampou jornais e revistas do País inteiro, foi entrevistada por Jô Soares e fez shows em que centenas de pessoas tiveram que ficar pra fora por falta de espaço.
E seu primeiro disco, independente, só deve sair em setembro. “Ando meio sem tempo desde que tudo isso começou, mas sempre há um jeito de arranjar uma deixa pra tocar, pintar e fazer a lição de casa”. Ah, é. Mallu ainda precisa estudar, como garotas de sua idade fazem. “As coisas mudam e se você tiver um grande sonho, tem de mudar também, mas nunca deixar de ser você”, filosofa a garota, que canta e compõe em inglês as canções que já receberam mais de 760 mil plays no MySpace (www.myspace.com/mallumagalhaes), como “Tchubaruba” e “J1”.
O diretor de marketing do MySpace Brasil, Haryston Oliveira, revela qual foi o segredo que fez com que Mallu se tornasse esse fenômeno da internet. “Assim como ela fez, é preciso manter a rede ativa, com muitas atualizações. Tem que ter um bom trabalho e fazer a rede funcionar”, explica ele. São cerca de 75 mil perfis de bandas nacionais no MySpace, que já se tornou obrigatório para quem quer viver da música. “Os três perfis brasileiros mais acessados são o do Nx Zero, da Marisa Monte e do Marcelo D2, o que mostra que atingimos todos os públicos”, afirma.
Alexandre Inagaki pintou na internet quando ela ainda “engatinhava” no Brasil. Começou a publicar seus textos em 1999. Mas foi em 2002 que ele criou o seu filho mais adorado. Hoje, o blog de Inagaki, o “Pensar Enlouquece… Pense Nisso”, tem uma média de 200 mil acessos por mês e 3.800 assinantes de RSS. Na quarta-feira, o Technorati, espécie de Google dos blogs, registrava exatas 3.458 citações ao “Pensar Enlouquece”.
“Foi uma ferramenta que facilitou a publicação dos meus textos”, diz Inagaki, que lucra com a empreitada. “O blog representa até 15% das minhas receitas mensais. E, por causa dele, já recebi convites para colaborar com várias revistas e jornais”, conta.
“Um blog é legal quando é escrito sem maiores preocupações. Tem que escrever sobre o que gosta”, aconselha. “O conteúdo acaba sendo valorizado naturalmente”, completa ele, que credita seu sucesso ao famoso boca-a-boca, ou, como ele prefere, o “mouse-a-mouse”.
Mallu Magalhães colocou suas composições no MySpace, foi entrevistada pelo Jô e está com a agenda lotada de shows
Publicado no Jornal TodoDia, em 16/05/2008




3 Comentários
Terça-feira, 20 Maio, 2008 às 9:47 pm
Léo
Vc é o membro da turma que se deu melhor no jornalismo. No sentido autoral, não tem pra ninguém: fazer matéria sobre Jeremias, a boa e velha dos discos de vinil… Quem mais consegue publicar os temas de nossas conversas do intervalo?
Não tem “abriliano” que supere isso. Parabéns e ainda mais sucesso (porque esse é bem relativo).
Segunda-feira, 23 Junho, 2008 às 9:37 am
passei por aqui e gostei… voltarei mais vezes!
Segunda-feira, 23 Junho, 2008 às 7:33 pm
Quem atualiza menos?
Eu, você ou o Pedro?
Yay!