Quarta-feira, 09 Julho, 2008...10:08 am

Terror à solta

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Ou a volta do Maldito

“Encarnação do Demônio” é o principal destaque de hoje no I Festival Paulínia de Cinema e traz de volta o sanguinário Zé do Caixão

Foram 40 anos de espera, vários roteiros reescritos e um personagem insubstituível. Mas Zé do Caixão rogará suas pragas por Paulínia, hoje à noite, na estréia do terceiro filme de sua saga, “Encarnação do Demônio”, principal destaque da programação de hoje do I Festival Paulínia de Cinema. Mas isso ainda não é o suficiente para que o cineasta José Mojica Marins, que também dá vida ao coveiro assassino, se sinta realizado. “Isso pode se concretizar em Paulínia, se eu sentir que o público gostou”, disse ele em entrevista exclusiva ao TodoDia , na tarde de ontem (leia mais sobre Mojica na página 5).

O filme, um dos mais esperados do festival, faz parte da mostra competitiva de longa-metragem de ficção e terá sua primeira apresentação pública na noite de hoje. E Mojica se mostra ansioso com a estréia. “Vai ser difícil dormir”, afirmou. “Minha religião é o cinema, mas minha satisfação é o público”, disse, surpreso ao saber que a expectativa é de que o Theatro Municipal de Paulínia esteja totalmente ocupado para a exibição do longa, às 20h.

Mas não é para menos. “Encarnação do Demônio” tem o maior orçamento entre os filmes dirigidos por Mojica – cerca de R$ 5 milhões. “Isso para mim é gigantesco. Até então, o maior era de R$ 120 mil”, conta o cineasta, que teve a colaboração de 70 técnicos durante as filmagens, número bem acima dos 12 a que ele estava acostumado. Isso, porém, não foi suficiente para que Mojica abandonasse seus velhos métodos na hora das filmagens. “Só usei computador para fazer o céu vermelho. Tudo é artesanal”, contou, citando a cena em que 3 mil baratas – “reais, de laboratório” – tomam de assalto o corpo de uma das personagens.

Nesta nova seqüência, Zé do Caixão continua sua busca pela mulher que será a mãe de seu filho perfeito. Para isso, ele espalhará terror pela cidade de São Paulo, abandonando cenários rurais e bucólicos de seus dois primeiros filmes – “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver” (1967). Depois de 40 anos preso, ele volta ainda mais sanguinário. “Está está mais envelhecido, mas também mais inteligente e violento, porque enfrentamos uma época violenta”, afirmou Mojica.

No elenco, veteranos como o ator Jece Valadão, que faleceu em 2006, pouco após as gravações, dividem a tela com novos nomes como o de Milhem Cortaz. “‘Encarnação’ é a minha obra-prima”, garante o cineasta. O longa tem data de estréia no circuito comercial marcada para 8 de agosto.

Personagem por acaso

Por sugestão de um maquiadores, Mojica encarnou Zé do Caixão e tornou-se uma das figuras mais conhecidas do cinema nacional

A espera por “Encarnação do Demônio”, roteirizado em 1966 e com exibição marcada para hoje no I Festiva Paulínia de Cinema, explica-se pela história do personagem. Zé do Caixão apareceu pela primeira vez em 1964, no clássico do terror “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. Mas a produção foi cheia de problemas, começando pelo lado financeiro. “Vendi a casa e os móveis”, lembra José Mojica Marins, que rodou o filme em apenas 13 dias, que era o tempo que podia pagar.

Ele também não tinha um ator para interpretar o personagem principal. Sua primeira opção foi Milton Ribeiro, que viveu Galdino em “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Mas ele recusou o papel por não querer associar sua imagem a um filme de baixo orçamento. Foi aí que um dos maquiadores sugeriu que o próprio Mojica interpretasse Zé do Caixão. “Eu topei e mandei comprar uma camisa preta”, lembrou.

Isso tudo porque, durante um jantar, Mojica adormeceu e teve um pesadelo em que se via sendo levado para uma gruta por um vulto preto e, lá, encontrou uma lápide com seu nome. “Debruçado na mesa, meu corpo mexia”, disse. Quando acordou, correu para escrever o resumo daquele que seria seu próximo filme, o primeiro com um dos personagens mais famosos do cinema nacional.

Apesar das dificuldades, o filme foi bem aceito pelo público e rendeu uma continuação. “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” chegou aos cinemas três anos depois, mas sofreu com a censura. A cena final, em que Zé do Caixão rejeita Deus, teve que ser refeita. “Até o diálogo eles me mandaram”, afirmou. “E aqueles 30 segundos finais ficaram sem razão de ser”, lamentou o cineasta, sobre a parte em que o coveiro pede a cruz a um padre para se redimir de seus crimes. A cena, como estava escrita no roteiro, entra agora no novo filme. Um dublê americano foi contratado para recriá-la. “Ele é parecidíssimo comigo aos 30 anos”, garantiu ele.

Mojica também lamenta que o público hoje tenha pouco acesso à sua obra. “Agora, com ‘Encarnação’, todo mundo vai querer ver os outros dois”, acredita ele, que aceita ser chamado de “um dos cineastas mais cultuados do País”. “Os jovens falam isso. Eu realmente estou de bem com todo mundo”, afirmou. “O trash virou cult”, disse.

Publicado no Jornal TodoDia, em 09/07/2008

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