Com unhas imensas, cartola e capa negras, José Mojica Marins comparece à estréia de seu novo filme, em Paulínia, e é aplaudido pelo público
Se eram aplausos o que o cineasta José Mojica Marins precisava para se sentir realizado com seu novo projeto, é provável que ele tenha deixado o Theatro Municipal de Paulínia em êxtase, quarta-feira. Sua aparição no I Festival Paulínia de Cinema, para a apresentação de seu novo longa, “Encarnação do Demônio”, foi o principal momento do evento até agora. Com a platéia completamente lotada, Mojica foi ovacionado ao entrar no local caracterizado como o personagem Zé do Caixão, protagonista do filme, com direito a unhas imensas, cartola e capa negras.
“Hoje não é dia de pragas”, disse ele, no palco. “Foram 42 anos que eu procurei resumir em uma página e meia”, continuou Mojica, tirando um papel do bolso de sua camisa e se referindo ao longo tempo entre a construção do roteiro, de 1966, e a conclusão do filme, que teve sua primeira apresentação pública quarta-feira. E ele não só leu, mas interpretou cada palavra escrita na folha amassada.
Em seu discurso, contou toda a história da produção de um filme que ele nunca conseguia levar adiante, fazendo o público gargalhar ao relatar como cada um dos produtores que fariam o longa morreram após demonstrar interesse pela empreitada, como em uma maldição. Tanto que, ao receber o convite do produtor e montador Paulo Sacramento, em 2000, ficou feliz ao saber que ele era casado e tinha filhos. “É muita gente para morrer”, contou, aliviado.
Depois de insistir nas possíveis conseqüências que “Encarnação” teria em mulheres grávidas e nas crianças, Mojica, ou melhor, Zé do Caixão, vociferou: “Esse filme terá continuação no seu pesadelo”. Foi a deixa para o início da projeção da terceira parte da saga do personagem, iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e que continuou três anos depois, com “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.
Mas nem mesmo os recursos em abundância – muitas vezes maiores do que o mais gordo orçamento com que já contou -, fizeram Mojica abandonar seu velho estilo. Quase nada de computação gráfica, e muita aranha, barata e um grande porco desossado que serviu de casulo para uma das personagens em uma seqüência empolgante.
No filme, Zé do Caixão deixa a prisão depois de 40 anos e retoma sua busca pela mulher que deverá gerar seu filho perfeito. Ainda mais violento do que quando aterrorizou pequenas cidades na década de 60, o coveiro protagoniza cenas fantásticas e de visual caprichado, como uma em que faz amor com uma de suas escolhidas durante uma tempestade de sangue ou na que cumpre a promessa de que sua vítima não veria o horror pelo qual passaria tapando seus olhos com o próprio couro cabeludo. Essa última fez o público reagir com calorosos aplausos.
Desnecessário dizer que “Encarnação do Demônio” não é digerido por todos os estômagos. Mas coroa a carreira de um cineasta que precisou vender casa e móveis para rodar seu primeiro clássico, que sofreu com a censura em “Esta Noite” e que conta com a simpatia e de um público que pouco – ou nenhum – contato teve com sua obra. “Esse filme era coisa que o cinema estava devendo para esse homem, e nós conseguimos”, disse Sacramento. O público de Paulínia parece ter concordado.
Publicado no Jornal TodoDia, em 11/07/2008




4 Comentários
Quarta-feira, 23 Julho, 2008 às 8:28 am
Pois é, rapaz.
Pra dar entrevista pro meu TCC, nem ferrando, né?
Azar o deeeeeele…
Abrazz!
Segunda-feira, 04 Agosto, 2008 às 5:41 pm
Léozito
Sensacional. Mojica é realmente uma grande figura e me orgulho de ter tomado uma gin tônica com ele. A crítica ficou totalmente excelente.
Agora, falando em crítica, voltei, aos trancos e barrancos, ao meu blog. E para quem quiser me ler todo dia, já disse, tou no Twitter, trupicando também, mas todos os dias: http://twitter.com/andrejuliao
Aquelabraço
Terça-feira, 05 Agosto, 2008 às 4:59 am
Sem dúvidas um dos melhores filmes do Zé do Caixão, e mais certo ainda um dos melhores filmes de todo cinema nacional!
Tive a oportunidade de ver o filme e filmar a abertura feita por ele mesmo, José Mojica Marins no FANTASPOA em Porto Alegre, quem quiser ver o vídeo é só clicar no link.
por favor ajudem a divulgar.
Quarta-feira, 03 Setembro, 2008 às 9:13 am
Desistiu de atualizar, fag?
Abrass!