Sexta-Feira, 11 Julho, 2008...1:39 pm

‘Hoje não é um dia de pragas’

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Com unhas imensas, cartola e capa negras, José Mojica Marins comparece à estréia de seu novo filme, em Paulínia, e é aplaudido pelo público

Se eram aplausos o que o cineasta José Mojica Marins precisava para se sentir realizado com seu novo projeto, é provável que ele tenha deixado o Theatro Municipal de Paulínia em êxtase, quarta-feira. Sua aparição no I Festival Paulínia de Cinema, para a apresentação de seu novo longa, “Encarnação do Demônio”, foi o principal momento do evento até agora. Com a platéia completamente lotada, Mojica foi ovacionado ao entrar no local caracterizado como o personagem Zé do Caixão, protagonista do filme, com direito a unhas imensas, cartola e capa negras.

“Hoje não é dia de pragas”, disse ele, no palco. “Foram 42 anos que eu procurei resumir em uma página e meia”, continuou Mojica, tirando um papel do bolso de sua camisa e se referindo ao longo tempo entre a construção do roteiro, de 1966, e a conclusão do filme, que teve sua primeira apresentação pública quarta-feira. E ele não só leu, mas interpretou cada palavra escrita na folha amassada.

Em seu discurso, contou toda a história da produção de um filme que ele nunca conseguia levar adiante, fazendo o público gargalhar ao relatar como cada um dos produtores que fariam o longa morreram após demonstrar interesse pela empreitada, como em uma maldição. Tanto que, ao receber o convite do produtor e montador Paulo Sacramento, em 2000, ficou feliz ao saber que ele era casado e tinha filhos. “É muita gente para morrer”, contou, aliviado.

Depois de insistir nas possíveis conseqüências que “Encarnação” teria em mulheres grávidas e nas crianças, Mojica, ou melhor, Zé do Caixão, vociferou: “Esse filme terá continuação no seu pesadelo”. Foi a deixa para o início da projeção da terceira parte da saga do personagem, iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e que continuou três anos depois, com “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.

Mas nem mesmo os recursos em abundância – muitas vezes maiores do que o mais gordo orçamento com que já contou -, fizeram Mojica abandonar seu velho estilo. Quase nada de computação gráfica, e muita aranha, barata e um grande porco desossado que serviu de casulo para uma das personagens em uma seqüência empolgante.

No filme, Zé do Caixão deixa a prisão depois de 40 anos e retoma sua busca pela mulher que deverá gerar seu filho perfeito. Ainda mais violento do que quando aterrorizou pequenas cidades na década de 60, o coveiro protagoniza cenas fantásticas e de visual caprichado, como uma em que faz amor com uma de suas escolhidas durante uma tempestade de sangue ou na que cumpre a promessa de que sua vítima não veria o horror pelo qual passaria tapando seus olhos com o próprio couro cabeludo. Essa última fez o público reagir com calorosos aplausos.

Desnecessário dizer que “Encarnação do Demônio” não é digerido por todos os estômagos. Mas coroa a carreira de um cineasta que precisou vender casa e móveis para rodar seu primeiro clássico, que sofreu com a censura em “Esta Noite” e que conta com a simpatia e de um público que pouco – ou nenhum – contato teve com sua obra. “Esse filme era coisa que o cinema estava devendo para esse homem, e nós conseguimos”, disse Sacramento. O público de Paulínia parece ter concordado.

Zé do Caixão - Encarnação do Demônio

Encarnação do Demônio

Publicado no Jornal TodoDia, em 11/07/2008

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